o amor e o uso dos pronomes

 

meu amor me presenteia com flores esquecidas na rua

meu amor tem pesadelos para que eu durma quentinha

meu amor é um urso com a pelúcia por dentro

 

meu amor é meu

: porque essa língua é surda

 nos enrosca e troça

 e só pensa nos possessivos.

 

 

A FLAP 2007 e rumores de sangre latino

Mônica Bergamo

Ilustrada, Folha de S. Paulo, 29 de janeiro de 2007.

"QUASE LÁ

Os organizadores da Flap - corruptela alternatica da Flip, a Festa Literária Internacional de Parati -, que até agora faziam o evento com recursos próprios, estão buscando patrocínios para ampliar sua programação. Querem trazer autores latino-americanos na próxima edição, em julho".

 

 

Sim, aqui vamos nós novamente. E alguns mais avisados já noticiaram: a FLAP toma corpo. Grandes seriedades não garanto, pois os adultos que me perdoem, mas senso de humor é fundamental.

 

O plano é conhecido: debates nos Satyros, primeira semana de julho. O assunto é que é avassalador – discutir literatura e as relações Brasil-Latinos, algo coisa meio que deixada de lado pelos nacionalismos eufóricos patrocinados pela CIA em outros mesmos governos. E em outubro, um grande Festival com estrangeiros e tudo o que temos direito e já tínhamos faz muito tempo.

 

Claro que não somos nenhuns inovadores: esse debate vem de longe – ultimamente encampado por queridos como Angélica Freitas e sua longa jornada narrada o ano passado em seu blogue, o Marcelino com sua Balada Literária, o Claudio Daniel e suas traduções, editores queridos que garantem a existência da Editora Amauta, cujas preocupações são apenas esses diálogos, sem contar espaços em revistas literárias como a Coyote e Etcetera e o lindo O Casulo, com sua edição especial, a vinda da Cartonera e do Cristian de Nápoli para a Bienal, enfim, um grande coro demolidor mobilizado.

 

FLAP 2007

Tordesilhas - Quantas palabras derrubam un muro?

 

Aguardem. Enquanto isso, comunidade do Orkut "FLAP 2007 - Eu vou!".

batismo



"Sarabanda - um caderno de estudos"


é esse o filhote para 2007, livro de poesia. tá na boca do fogão - no momento lavo a louça suja, cato o lixo e coloco as cumbucas limpas para escorrer.

serviço de utilidade pública
rapidinha desformatada:

O selo Ouro sobre Azul está a reeditar toda a obra do Antônio Cândido em projeto coordenado por sua filha, Ana Luísa Escorel – que projeto bom! E chegaram na Rato de Livraria o “Formação da Literatura Brasileira” e “Literatura e Sociedade”.

A Rato entrega sem cobrar frete em vários lugares de São Paulo, além de ser uma livraria charmosa que dá a maior força para a literatura viva. R. do Paraíso, 790, metrô Paraíso, (11) 3266.4476, http://ratodelivraria.blogspot.com.

Outro lugar legal de se adquirir obra é diretamente com a Editora: http://www.livrariaresposta.com.br/ouro.htm. Encomendas em (11) 5044-7565.
Bragas e Poesia

O Ronaldo Braga escreveu um texto em um diálogo com o Peixe de Aquário. Agradeço muito. Post de 20.01.07, veja aqui.

 

A ilustração retirei de lá, trata-se de mais um trabalho de Ederson Batista – criação sobre a peça teatral FÚCCIA, de Ronaldo Braga e Nelson Magalhães Filho. Aguardemos para ver a versão final.

 

Poesia Caribenha e Black British

Postei esse texto o ano passado (11.11.06) e acho ele sempre necessário: vai novamente para o final de semana.

 

Xenofobia é um lugar comum e até meio banalizado. Mas o que trouxe hoje creio que não é: tive uma aula sobre Poesia Caribenha, Black British e os movimentos de resistência poética contra o tatcherismo. Conforme declaração proferida pela própria Margaret Tatcher em 20 de fevereiro de 1978 sobre imigração:

 

Mrs. Thatcher called for a "clear end to immigration," on the ground that "people are really rather afraid that this country might be swamped by people of a different culture. And, you know, the British character has done so much for democracy, for law, and done so much throughout the world, that if there is any fear that it might be swamped, people are going to react and be rather hostile to those coming in."

 

(e qualquer semelhança com os dias de hoje é mera coincidência). Link para o artigo da Time: “Mrs. Thatcher's Bold Gambleleia aqui

 

Um exemplo lindo dessa resistência é Linton Kwesi Johnson, um poeta caribenho que morou na Inglaterra. Nasceu em 1972 na Jamaica, imigrou para Londres em 1963 e desenvolveu a dub poetry, poesia cuja escrita fonética é baseada na dicção do crioulo e há trechos inteiros em rap. E para quem precisa de um ingrediente canônico para acreditar que "isso é poesia", lá vai: Kwesi Johnson foi o segundo poeta vivo a ser publicado na série Penguin Classics – título, Mi Revalueshanary Fren.

 

O melhor, no entanto, é ver a maneira de se declamar esse tipo de poema. No Youtube encontrei um link com o poema abaixo, filmagem retirada da BBC. Ótimo para desejar o bom final de semana. veja aqui 

It Dread Inna Inglan

Dem frame up George Lindo up in Bradford town
but de Bradford blaks dem a rally round
me seh dem frame up George Lindo up in Bradford town
but de Bradford blaks dem a rally round

Maggi Tatcha on di go
wid a racist show
but a she haffi go
kaw,
rite now,
African
Asian
West Indian
anÂ' Black British
stan firm inna Inglan
inna disya time yah.

Far noh mattah wat dey say,
come wat may,
we are here to stay
inna Inglan
inna disya time yah...

George Lindo - im is a workin man
George Lindo - im is a famili man
George Lindo - he never do no wrong
George Lindo - di innocent wan
George Lindo - im nuh carri do dagger
George Lindo - im is not no robber
George Lindo - dem haffi let im goh
George Lindo - dem betta free im now !

Ilustração: retirada da Wikipédia, trata-se de capa de CD lançado em 1991

aniversário de são paulo

Folha de S. Paulo, 23 de janeiro de 2007

Mônica Bergamo

 

 

"PELADAÇO

O grupo de teatro Os Satyros está planejando um "peladaço": os atores sairão nus pela praça Roosevelt em protesto às reclamações sobre a performance da atriz Patrícia Aguille que, em novembro, desfilou sem nenhuma roupa sobre um cavalo durante o festival Satyrianas".

 

 

(Mais pelas mesas de bares e no blogue do Ivam Cabral)

3 Poemas e Cactos
Cá estou novamente sem formatação, mas com três bons poemas.

O primeiro deve ser teu conhecido: trata-se do poema sobre o cacto de Manuel Bandeira, em que há uma dimensão épica do vegetal que evoca o interior nordestino e coloca, como um godzilla verde de carne-e-oco, em caos a cidade inteira. Aliás, sempre me lembra um poema do expressionismo alemão, o Weltende, de Von Hoddis (assim que eu chegar em casa te passo o link).

O segundo, se você fuçar um pouco a internet, é bem divulgado: trata-se do poema feito pelo Fabio Aristimunho em um diálogo com o Bandeira, aproveitando-se da forma original (quase), mas com uma outra dicção poética, pois sua investigação se concentra na figura do cacto em si.

Por fim, o terceiro é novo: trata-se de um poema que o Gustavo Assano fez considerando os dois primeiros e inclusive numa síntese de conteúdo. [Em tempo, o blogue do Gus está a procura de um novo nome, quem quiser sugerir um...]


O CACTO


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária!
Laocoonte constrangido pelas serpentes.
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, catingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro ho-
[ras privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.
O CACTO


São mesquinhos os cactos.
Aptos ante o inóspito,
optam o fluxo (não ínfimo)
reter no oco. Aptos, mas
míseros são os cactos
– com espinho abstêm-se os céticos.

Cético: ser como o cacto:
signo ereto de acúleos.
Ressentir do silêncio
das folhas, conformar-se
à demência dos galhos.
Ser convicto sem fruto.


CACTOS

Cômicos são os cactos
Quando apartados
De dentro de suas
Lógicas, abjetos.

Na ínfima destreza
De mesma natureza
(como rimas malfazejas)
Consomem da atmosfera
O avesso de todos, feras.

Pois, se desta parca inanição
Revelam o óbvio do fajuto,
Sustentam a própria progressão
Esfacelando o antes ancorado

E bruto.

alçapão

 

Estava a discutir agora com os ursos sobre as limitações em se utilizar a internet como ferramenta de comunicação ou formação de espaço crítico. Por exemplo, aqui: há limite de caracteres por postagem, assim como para comentários. Claro que é possível postar duas vezes ou se comentar de maneira repartida. O ponto não é que é possível. Meu ponto é que a própria idealização de um espaço de comunicação é formatada e limitada a um modelo pré-concebido que nos obriga a seguir um scrip prévio. E violentar esse modelo fica difícil. Essa é uma das razões de o Peixe de Aquário ser sobre poesia – pois é uma maneira pequena de se dizer grandes coisas. Mas nem sempre funciona. Os poetas preenchem formulários. O mundo, um buraco branco, onde as idéias são claras e os tempos escuros.

 

 

teimosia
profundidade na sombra de um azul cintilante,
disciplina nos 3,7 cm de delineador,
mas gostam mesmo de mim borrada pelas manhãs.



Poema publicado originalmente no "Rasgada". Vai para a Ellen.
fotos

Muito bem, há rumores pela cidade de acontecimentos com sangre caliente que no momento não revelarei.

 

Assim, posto fotos:

  • Sexta-feira na Paulista para a Julia (quatis!)
  • 2007 começando no Sebo do Bac com Mirisola na Pça Roosevelt e
  • Cláudia, cuja estrela já está na constelação-cardume teatro. Sua prima, Carol Marossi, escreve sonhos doces para a Cratera no Hay Tomates.

teste

 

 

encruzilhadas e convites

Vagar pela internet é sempre um caminho. Entretanto há algumas paradas obrigatórias: queria pontuar achados da semana.

 

[1] quatro blogues que andam estupendos com traduções:

 

- De Novo Nada com o Inventário de Günter Eich

 

- Medianeiro cumpre o desafio lançado pelo Nelson Ascher e traduz Epitaph do Landor

 

- Dragão na Janela sobre o Nariz, Nariz e Nariz do Bocage

 

- Mostra de Poesia Chilena do Pele de Lontra III

 

A qualidade da pesquisa é cuidadosa e os poemas sem engasgos de versão – rascunho talvez de um dia virarem papel? Nem sei se a pergunta é pertinente.

 

[2] Entrevista do Fabio Weintraub para O Casulo.

 

Sobre sua experiência com a Ocupação Prestes Maia e sua Biblioteca Comunitária.

 

[3] Discussão cerrada no Escolhas Afetivas: o que você acha da situação da poesia no brasil?

 

Digladiam Carlito Azevedo, Ricardo Domneck, Heitor Ferraz, Marovatto, Marco Siscar, Dirceu Villa, dentre outros, inclusive o Buda Nagô. Um trechinho do Dirceu que me tocou:

 

"Alguns poetas permanecem vivendo a síndrome de vanguarda. Quer dizer, não importa o que façam, devem inaugurar tudo de novo, igual ao esquema dos partidos políticos rivais, na troca de poder. É nesse alçapão que têm se metido, porque é um erro muito comum de circunstância histórica, e nada óbvia, essa.

 

Considere o que foi o começo do século XX e a necessidade de refazer uma arte estacionária. Um trabalho imenso, e alguns conseguiram propor algo que não fosse só o “deixa disso”.

 

O que acontece hoje? Precisamente o contrário: a “vanguarda” e sucedâneos (que já não têm mais nada a ver com vanguarda, na verdade) tomaram o lugar morno da velha arte oficial & são tão quadrados e imprestáveis quanto o que levou artistas a se rebelarem contra a paralisia geral na arte há uns cem anos".

[4] Nova edição da revista eletrônica MURO

 

...

O engraçado é que blogue ainda é um troço meio submundo: hein, você tem um blogue? Creio que não imaginam o que se passa por cá.

 

Irena
escreverei pouco, pois os softwares livres não conversam bem com esta interface. de casa não deu tempo.

uma foto fantástica diz o que quero hoje essa chuva esse cinza ratazana dos prédios:
irena - http://www.flickr.com/photos/lepetit20/317760261

gracias ao diego carrera, tão querido e talentoso.

A Cratera II

 

 

Foto: Gregoria Correia

 

O post de ontem foi um pequeno recorde de audiência. Creio que é por isso que os jornais na televisão apostam na desgraça. Hoje assim escolhi um último recurso para se dialogar com a realidade estúpida: um dos sonetos mais famosos do Drummond.

 

Como bem nos traz o Carlos Machado, no Caldas Aulete consta o significado das cinco letras do título: quer dizer pelo menos três coisas: 1. problema insolúvel; situação sem saída; 2. uma espécie de inseto que cava a terra; e 3. uma orquídea verde. (Curioso: nem o Aurélio nem o Houaiss, hoje, trazem esses três significados. Ambos dão somente um, o primeiro.)

 

Áporos somos nós e o estômago a céu aberto de 80 metros de diâmetro.

 

As orquídeas são seres hermafroditas, o inverso dos anjos dentre as flores.

 

         

Áporo

 

Um inseto cava

cava sem alarme

perfurando a terra

sem achar escape.

 

Que fazer, exausto,

em país bloqueado,

enlace de noite

raiz e minério?

 

Eis que o labirinto

(oh razão, mistério)

presto se desata:

 

em verde, sozinha

antieuclidiana

uma orquídea forma-se.

 

Carlos Drummond de Andrade, in A Rosa do Povo, 1945. 

A Cratera

 

Foto: André Porto/Folha Imagem

 

Estive com dificuldades em escolher a forma de se contar isso. Não decidi. Pensei é nos ensinamentos de García Márquez, quem escrevia histórias a partir de fatos reais de jornal, quando a realidade parecia muito mais fictícia do que seu realismo fantástico. Assim que sinto a cratera.

 

Era um lugar tão familiar. Perto e cheia de vida enterrada, um vulcão roto a engolir gruas de sobremesa, a mastigar caminhonetas de plástico. Um estômago ao ar livre com 80 metros de diâmetro e 40 de profundidade.

 

Ninguém conseguiu prever – esboça-se um sorriso de troça no povo sabedor das mentiras do jornal. Uma catástrofe sem acusados. A chuva tropical. A marginal interditada. Os grafiteiros haviam previsto nos astros de néon, em seus baralhos de concreto, mas os muros foram surdos. A marginal cede ao meio. O grande esgoto a céu aberto infiltra-se pelo coração da cidade como sangue grosso, penetra podre, tão podre e televisionado por helicópteros, drosófilas escuras e irritadiças. O poço escuro sem calçadas.

 

Cada minuto passa. A mão do bombeiro não nos alcança. Até os bombeiros devem preencher formulários.

 

a festa do laerte - fotos

A festa foi bem humorada, cheia de gente gostosa e astral de um janeiro tranqüilo. Pessoas que nunca sentariam dentro do mesmo bar repartem a calçada muvuquenta. O Laerte e o João estavam lindos, assim como tantos outros.

As fotos estão aqui.

 

a festa do laerte

 

Amanhã quem estiver por aqui já sabe o que fazer: festa do Laerte Késsimos no Espaço dos Satyros I, Pça. Roosevelt infos aqui. Celebra-se o aniversário também do João Roncatto e o falecimento de Waterloo Gregório. Conforme o Ivam Cabral conta no blogue dele:

 

Quando [Waterloo] soube que seria operado, no início do ano passado, me intimou:

 

- Quando eu morrer, faça uma grande festa em minha homenagem.

 

A última vez que o Waterloo esteve no Satyros foi em janeiro do ano passado, na festa de aniversário do Laerte. O Waterloo morreu hoje, às vésperas do aniversário do Laerte, que fará uma grande festa no sábado.  Curiosamente, foi por intermédio do Waterloo que conhecemos o Laerte. Foi ele quem o trouxe até nós. E eu e a Cléo e o Rodolfo e o Alberto e o Dimi, sinceramente, não saberíamos como seria as nossas vidas, hoje, sem o Laerte.

 

(...) Mas vamos levar a sério o pedido do nosso Waterloo, no sábado. Vamos comemorar a sua brevíssima passagem por este planeta, na festa do Laerte. E vamos beber e enlouquecer. Quiçá, chorar um pouco também.

Apenas pessoas que realmente sabem o que é a vida podem fazer uma festa com esse mote. E você sabe viver? E estará amanhã à noite onde?

 

O plano é postar as fotos depois, veremos.

 

vestidos de noite usados de dia

Cá estou, caneca de chá em punho. Hortelã por hora, igualmente do quintal. Outras correspondências, desta feita uma que faz tempo gostaria de escrever a respeito – apesar da história engraçada que envolve o prefácio já ter sido relatada devidamente nos Doces Enjoativos. não perca - leia aqui

 

Trata-se da Bruna Beber (leia-se “béber”), carioca e, ao menos na escrita, possui ótimo senso de humor, linguagem direta, referências criativas do mundo pop, figuras inusitadas e geralmente um travo de pouca obviedade nos finais de seus poemas.

 

De certa maneira sinto que a Bruna canaliza muita coisa do que se escreve em várias paragens, talvez daí surja uma familiaridade confortável de seus escrito. Recomendo principalmente os que falam de amor. Datilografei dois para você.

 

 

MATHILDA NIGHT AND DAY (BAR)

 

flor é bonito

temos em toda parte

parque jardim ramalhete

cemitérios para agora

cerimônias para viagem

e aqui nesse cardápio

temos flores em promoção

entre comidas

com nomes que não sei ler

e que só vejo em fotos de revistas especializadas

quando me mostram

na cozinha do restaurante

mas o senhor que gosta de flores

sabe que deve-ser estar vivo

para gostar de flores.

GRACILIANO BEAT

 

vejo dragões bêbados

beliscando pipas agarradas

na roda-gigante imaginária

dos moinhos

 

ando arruinado

e louco

mas otimista.

 

não fossem os vícios

e os códigos de defesa

do consumidor

eu diria que

estou farto de tudo.

 

espero o outono chegar

e enferrujar as árvores

pra eu andar chutando folhas

e não chutando lixo.

 

Bruna Beber,

in a fila sem fim dos demônios descontentes. 7 Letras, 2006.

 

A Flor Roxa

Cansada e com as pupilas dilatadas, escolhi um do Rasgada (2005), desses poemas velhos que dão saudades.

 

 

 

A Flor Roxa

 

Subitamente desabrochou tatuada no meu seio esquerdo

Essa daí deve gostar da noite

 

 

 

Tse-yang, pintor de leopardos

Todos passam por crises – hoje sou uma. Às vezes parecem que as pecinhas de dentro quebram, os poemas saem embatucados, chatos, como cabelos sem viço. C’est la vie.

 

(Melhor que ser corretora da Prova de Redação da FUVEST e ter que agüentar trocentos textos sobre o tema "amizade" - nem vestibulandos, nem corretores merecem tamanho blablablá. Entre enforcamentos na CNN e tiroteios na Globo, escrever sobre "amigo é coisa para se guardar/ debaixo de sete chaves" nos pede, no mínimo, atentados, já que suicídio seria uma alternativa muito derrotista. Terrível).

 

Bem, adoro responder poemas. E no melhor espírito da crise de criatividade, aí vai um fenomenal, cujo rascunho de resposta nunca ficou pronto. Eqüilíbrio delicado, trama fina. Infelizmente tive que o dividir, pois mesmo com ajustes não passou no crivo do limite de caracteres.

 

Tse-yang, pintor de leopardos

 

(retrato apócrifo)

 

Olho de garça, cabeleira nuvem-prata,

Tse-Yang

sonhava rajado

com leopardos;

seu nanquim

desliza, deslizava

na tela

de alvo tecido

– lua nova, pescoço de cisne,

pele de arminho.

Um sino

soava apenas

para seu

lento desjejum:

depois,

alguns copos

de branco vinho

de arroz, e voltava

ao ofício dos pincéis,

Namo Amithaba.


Sobre Tse-Yang,

sua arte vigorosa

de recusas,

diga-se: ele não quis

jada, pérolas, neblinas

ou o palácio

da deusa da lua.

Tse-Yang amou

apenas os leopardos,

essas feras

rútilas –

e animalizou

os dedos das mãos,

o pincel, a tela

e as tintas,

animalizou o olhar

e fez de tudo

uma só fera,

em busca

da maior pureza,

como se nada

mais houvesse.

(Um dia, saiu

da cabana

de folhas secas,

maravilhado

em mistério

e fez-se leopardo

entre leopardos.)

 

Claudio Daniel

in A Sombra do Leopardo, Coleção Flor Azul, Azougue, 2001

Para o Marcão

 

Hai-kai ludopédico (I)

 

Domingo sem futebol

...Os deuses brincam

...De chutar o sol.

 

 

Xico Sá

poema publicado na Folha de S. Paulo, Esportes, 5 de janeiro de 2007

 

Anjo Lele: trabalho de Alessandra Cestac

Poemas d'Os Sete Novos 3

Foto: Underground People,

Diego Carrera, fotógrafo oficial do Peixe

POEMAS PARA SE LER AO MEIO-DIA

 

Pega a poeira das estrelas e guarda,

remenda, junta e forma outra estrela possível.

(o meio-dia possui estrelas que até a noite desconhece).

 

 

NOITE 2

 

Mas afinal, será que a noite é mesmo a noite?

Será que o meio-dia é isso?

Ou estaremos todos cegos olhando para olhos de vidro

do outro, para o espelho do outro, ladrões de nós

mesmos correndo incendiados por ilhas além mar?

Augusto de Guimaraens Cavalcanti

in Poemas para se Ler ao Meio-Dia, 7 Letras, 2006.

Poemas d'Os Sete Novos 2

[Antes que você me pergunte: sim, os dois Guimaraens são da genealogia poética que ronda o sobrenome Guimaraens em nossa literatura – Alphonsus de Guimaraens, João Alphonsus, Bernardo Guimaraens, Afonso Henriques Neto - aliás, adoro o último...]

 

Foto: Noite no Tâmisa,

Diego Carrera, fotógrafo oficial do Peixe

 

 

NESTE PROFUNDO LIMBO DE SONHOS

 

o mar é todo um túmulo

e tudo que se vê

está repleto de uma tristeza iminente.

 

esta dádiva este castigo

ter gravado nas retinas

as luzes deste estranho ninho

de azuláveis alucinações.

 

no mais profundo deste limbo

que magma correrá nas artérias

como incoagulável sangue?

 

geográficas feridas acidentais

mancham de morte um hemofílico planeta.

 

Domingos Guimaraens

in A Gema do Sol, 7 Letras, 2006.

 

Poemas d'Os Sete Novos 1

Foto: British Museum,

Diego Carrera, fotógrafo oficial do Peixe

 

MACAO

 

Proteja, São Tiago da Barra

..o que nos restou de Ming

antes dos jogos de azar

antes da pena

..de Camões

....derramar os primeiros veros

sobre o solo

fazendo brotar nossa última

......flor de lótus.

  

Mariano Marovatto

in O Primeiro Vôo, 7 Letras, 2006.

 

Os Sete Novos

Recebi uma intimação dos correios para ir buscar uma carta registrada numa agência em Pinheiros – horário péssimo: das 9h às 17h. Certo, peço licença ao chefe e após me perder pelas labirínticas biboquinhas, chego lá. O que era? Três livros! Eles, Os Sete Novos! - estréias pela 7 Letras.

 

Cada um dos Sete tem uma dicção diferente – afinal o estilo pós-moderno é a ausência da predominância de estilos, não é mesmo? Mas os temas entrelaçam-se freqüentemente nos três: cidades poderia resumir talvez (“a cidade é um naufrágio”).

 

Obedeci a ordem sobre o meio-dia e gostei imensamente dos poemas do Augusto, às vezes me sabe como o Del Candeias, mas diferente, pois a forma ali ronda os limites do poema-em-prosa-prosa-poética e alguns tercetos bem construídos e intensos. Há fotos que dialogam.

 

Na A Gema do Sol deslindam-se construções de alguns seres mitológicos, de escolhas proparoxítonas, figuras metálicas, estrelas e mares – “as estrelas/ ossadas perdidas do universo / luminescentes radiografias/ do berçário das eras”. Sei de muita gente que irá gostar do cara.

 

O Primeiro Vôo traz uma exploração densa da página de papel. Ciente da ciência dos Campos ele caminha além nas trilhas do espaço branco, colocando cada vogal em seu lugar, tateando formas a depender do ritmo do poema (eu achei). Legal também que ele explora várias seqüências propostas: Isolas, Epitalâmios ou China 1924 (gostei dessa série), dentre outras.

 

Ah, para os fetichistas: o acabamento gráfico é lindo, capa de papel cartão boa de acariciar.

 

Por fim, levei os três para conhecerem a Mercearia, onde já estavam o Marcelino em seu posto avançado de observação e a Mirtes. Fui lá encontrar o Victor del Franco e o Fábio Aristimunho, o qual inclusive decifrou e devorou de primeira o palíndromo latino que é o mote da Parte V do livro do Marovatto: “Sator arepo tenet opera rotas” – ahá, como é bom achar chaves interpretativas de poemas herméticos! As fotos serão publicadas no Medianeiro.

 

 

[EM TEMPO] Ontem chegou o Imp. também – autoria do Thiago Ponce, uma carioca lindo com sua escritura hermética cheia de enigmas para se decifrar e devorar. Sobre o Imp. deter-me-ei mais tarde, é preciso se ler com a calma de comer chocolates.

 

 

luas da terê

 

A cidade ainda está um pouco vazia, como tento mostrar na foto da av. paulista garoenta.

 

E dois poemas da Terê Tavares vão para você.

 

Luas

 

tenho duas luas

sorrindo

sob a blusa

 

gêmeas & macias

cabem nas mãos tuas

as minhas duas luas

redondas e nuas

 

mordaças

bailarinas

minhas luas

travessas

meninas

levam-te

até que respires

o sossego do sono

 

 

 

Jabuticabeira

 

noiva do sol

veste-se de olhos negros

núpcias da noite

 

Voltei.

 

Com uma caneca de chá de erva-cidreira colhida no quintal (ainda nem tudo está perdido), abro toda a correspondência atolada: contas a pagar, propagandas do itaú, a Entrelivros que traz o dossiê sobre Clarice (e diz que agora o site estará mais ativo e com capricho na sessão Tinta Fresca), e o Embrulho de Banana.

 

O Embrulho é um fanzine mensal que recebo pelo correio, muito legal, com editorial da Camila Conti, com tiragem de 300 exemplares. Visita o site deles: www.embrulhodebanana.org.

 

 

Recebi também livros: um da Tere Tavares, que é uma criatura muito especial, o Flor Essência. E dois que são feitos para se ler com os dedos, mas outro dia conto. É bom estar de volta em casa.

 

Por essas tiradas de pó da net, encontrei 4 coisas que me deixaram feliz:

 

[1] Os Satyros montarão uma peça infantil (blogue da Cléo, a bela)

 

[2] O livro de poemas do Edwin Morgan com poemas selecionados e traduzidos da Virna Teixeira foi publicado! Pela Editora UnB. Corram atrás, é fundamental o conhecer. clica aqui

 

[3] Os dizeres do Antonio Vicente Pietroforte em seu blogue: o Avestruz Sem Plumas fará não um concurso, mas o projeto de uma antologia de poesias. Quais as boas poesias contemporâneas que falam de foda?”.

 

Colaborem, hahá, adorei. O Vicente, para quem não conhece, é Professor da Letras FFLCH-USP e um dos grandes responsáveis por se oxigenar os ares sobre a produção contemporânea por lá.

 

[4] O blogue do Paulo Ferraz - De Novo Nada. Desde a narrativa de sua viagem à Minas ao poema de Anna Akhmátova sobre o fuzilamento de seu marido. Maravilhoso.

 

pequenas indecências

ganas

de te dar uma mordida nos flancos da nuca
de sentir vc me arranhar com os dentes onde quiser

mas já faz tanto tempo

 

 

 

 

poema velhinho publicado no Rasgada,

coisas de se ver a chuva na praia.

foto

legenda: a lanhouse e seus tiros imaginários pelas paredes.

quem linka o peixe
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