feira do livro em jerusalém

A história é boa: Um grande amigo, o Caqui (ou na grafia mais ortodoxa 'Kakhi'), que sempre nos acolhe de madrugada em sua casa para comer pizza, tomar cerveja e fumar nargilê (sendo esse “nos” as mais diversas pessoas) está em Israel.

 

Como haverá uma Feira de Livros por lá, escrevi para ele contando que haveria autores brazucas, dentre eles o Galera, dono do blogue onde li a notícia.

 

Bem, claro que o Caqui não se conteve em apenas encontrar os compatriotas na tal Feira:

 

“Nem tinha como não saber. A cidade estava cheia de cartazes, o jornal ja antecipava todas as notícias, e do Brasil a Ana Rüsche tinha me avisado já. A feira internacional do livro de Jerusalém era o acontecimento do mês na cidade. Prometia muito, e ia contar com a presença de uma delegação brasileira de escritores, patrocinados pela CONIB. Tudo muito trivial.

 

E já se passavam naquele dia uns 3 dias da tal semana da feira. E nesse exato dia eu tinha pegado a tarde pra fazer um roteiro centro, arte, loucurinhas da cidade velha e o musueum on the seam, q e simplesmente indescritível. A tarde um casamento ortodoxo numa das cidades mais religiosas de israel, Bnei Brack.

 

Minhas expectativas pro casamento estavam altas. Dançar com um monte de homem suado e barbudo, sem mulheres, frango e arroz, e garrafa de refrigerante na mesa. Assim são todos os casamentos ortodoxos em Israel. Coloquei meu terno, o único, e fui-me ao casamento com minha kipa colorida, a única colorida no meio de um mundo de kipas pretas.

 

E o casamento me comeca com uma surpresa”.

 

Leia tudo em  http://mauricismos.blogspot.com.

 

E AMANHÃ tem o café com a Andreá Del Fuego no Entrelinhas da TV Cultura – e para quem a emissora não pega, eles normalmente disponibilizam na net as entrevistas. aqui

EMBOSCADAS

vídeos sobre literatura e afins no Youtube

 

BLOG: http://emboscadas.wordpress.com

 

 

Equipe:

- Direção e roteiro: Gustavo Assano

- Edição: Ana Rüsche

- Âncora: Del Candeias

 

 

Edição de Fevereiro – Março de 2007

 

Parte I - EMBOSCADAS: A Faculdade de Letras

No ar! Link: http://www.youtube.com/watch?v=KoWUbdcTDIQ

Questões sobre a Faculdade de Letras: Participação de calouros da FFLCH-USP, opiniões de Del Candeias, Frederico Barbosa, Andrea Catropa, Eduardo Lacerda e outros.

 

Parte II - EMBOSCADAS: A Academia e o Cânone

Lançamento: dia 5 de março de 2007

 

Parte III - EMBOSCADAS: A Faculdade e Autores Contemporâneos

Lançamento: dia 12 de março de 2007

a ilustrada de ontem

Esses dias mesmo por ocasião de um episódio estive pensando sobre a incapacidade de se discutir de forma responsável certos assuntos – e forma, no caso, é o foco. O Sérgio Sálvia Coelho publicou uma crítica na Ilustrada a respeito de Inocência, peça dos Satyros. Contra e a favor da crítica foram feitos 47 comentários no blogue do crítico, Na Moita, o qual respondeu todas as intervenções com paciência de Jó.

 

O grandíssimo problema é que por conta da própria forma de comentário – letrinha minúscula, sem parágrafos e cia – toda a discussão ficou resumida a certo ar de time de torcida de gincana “bandeirinha azul” contra “bandeirinha amarela”, em lugar de se procurar uma superação sobre aspectos críticos que envolvem a montagem. Em um dos comentários ao Guzik sobre o episódio, bem escrevi que a sorte é que a poesia não cabe nos grandes jornais.

 

Pois bem, não vi a edição da Ilustrada de ontem, mas consegui ler aqui e aqui a matéria do Joca sobre os 10 anos da Inimigo Rumor e os próximos lançamentos em poesia, dia 12 de março: o Rilke Shake de Angélica Freitas, A Cadela sem Logos do Ricardo Domeneck e o da Marília Garcia (que o Google me insiste em não me passar o título, peço desculpas e agradeço contribuições!). O Gus me falou que até publicaram poemas! Olhe, não sei quem foi o responsável lá dentro, mas digo: mandou bem e deveria haver mais.

 

Um trechinho do Joca (o próximo parágrafo fala como a Inimigo Rumor chega aos seus 10 anos):

 

“A curta sobrevivência de publicações dedicadas à criação literária tornou-se clichê lamentável, mas verdadeiro (eis outro clichê). Em geral criados por grupos de entusiastas e amigos, tais periódicos (a denominação nem sempre é correta, já que "periodicidade" não é seu forte) sofrem com problemas financeiros, de distribuição, falta de qualidade e com a indiferença dos leitores. Sem platéia com que se confrontar, não é incomum poetas digladiarem-se entre si mesmos. É assim, por cissiparidade e ódio fraternal, que novos grupos e revistas se formam”.

 

Enfim, uma situação que conhecemos bem. Mas a resignação, embora tente, não alcança nunca este aquário com suas paredes de vidro.

Quero Ser Tambor

Agora entraremos na era do áudio e vídeo e dá-lhe youtube – já que na era da TV digital provavelmente o texto escrito perderá pouco a pouco sua primazia para o vídeo nos domínios virtuais...

 

Pois bem, nessas viagens encontrei uma coisa linda: releituras do “Quero Ser Tambor” (em Karingana ua Karingana, 1982), do Craveirinha!

 

José Craveirinha nasceu na antiga Lourenço Marques, nome da atual capital moçambicana Maputo, em 1922, e faleceu em 6 de fevereiro de 2003. Para aqueles que precisam de dados canônicos, é considerado o poeta maior de Moçambique e em 1991 foi o primeiro escritor do continente a ganhar o Prêmio Camões.

 

Militante socialista, foi torturado pela PIDE, polícia portuguesa salazarista, e permaneceu preso entre 1965 a 1969. Usou diversos pseudônimos como Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Filho de pai português e mãe africana, teve criação bilíngüe, como a maioria da população africana: “(eu) tinha que falar português, e minha madrasta não admitia que falássemos na nossa língua africana (...) eu não aceitei, e quanto me apanhava lá fora, ia brincar com outras pessoas que falavam a língua”.

 

Então, esses falares todos podem ser ouvidos e lidos!:

 

  • A declamação de Vitor Sousa do poema pode ser ouvida por meio da seleção feita por Guilherme Melo. AQUI
  • E o projeto musical "Bumba", uma parceria entre o músico Fran Pérez (da Galícia) e o Grupo Timbila Muzimba (Moçambique) compuseram canção com base no poema. AQUI

É claro que você vai rir um pouquinho com os falares: a gente sempre ri quando se reconhece, mas nem tanto.

 

QUERO SER TAMBOR

 

 

Tambor está velho de gritar

ó velho Deus dos homens

deixa-me ser tambor

só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

 

E nem flor nascida no mato do desespero.

Nem rio correndo para o mar do desespero.

Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero.

Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

 

Nem nada!

 

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra

Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra.

Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra!

Os chineses perscrutam a lua

Os chineses percrutam a lua

de perto. Têm um grande país

mas querem visitá-la. No lado

Li Po mergulha bêbado e morre.

Não aceitam que o ar ou a água

se interponha no caminho deles.

Pensam que a lua é sua casa

e que é seu direito ir até lá.

Adentram um foguete e se lançam

no espaço como os russos fizeram;

não enviam mais cadelas porém:

julgam tratar-se de um privilégio

aproximar-se da lua. Têm

um grande país. Maior que ele

é a noite que instiga seus desejos.

 

 

O poema é do Rafael Daud que anda submerso por essas avenidas. Deu saudades. O Daud é um excelente escritor, aliás, creio que da melhor safra que já conheci – sempre aguardo seu romance e penso como vai o anjo decaído. Mas para falar a verdade, procuro loucamente um poema do Alex Machado sobre um sonho com Deus e os enfermeiros, mas não encontrei, depois acho, faz tempo que o quero aqui. Esse do Daud me pareceu interessante – é engraçado como falar de chineses hoje não tem o mesmo sentido de imaginar pessoas de Sezuan em meados de 1939...

 

O saudosismo tem a ver com a leitura hoje de várias revistas FNX (grafia evolutiva do nome bregoso PHOENIX), trata-se de uma revista editada pelos alunos da São Francisco há 20 anos. E ainda dizem que certas revistas literárias não sobrevivem! E ela é uma graça, posso assegurar – para os fetichistas: formato pocket, papel pólen, fonte garamond e fotos do Menk nas últimas edições.

 

Mas por hora preferi uma foto da Lua, gatinha muito bem fotografada pela Xti, imagem cuja reprodução é autorizada para fins não-comerciais: te mostrar aqui.

que venha a 4ª de cinza

O carnaval sitiado em São Paulo por conta da falta de vontade de enfrentar trânsito e outras questões cotidianas foi produtivo, escrevi bastante, editei alguns vídeos de forma porca e caseira, estou na metade da leitura de um (ótimo) romance, dei muita risada com amigos. Naveguei pouco pela internet. Mas achei essa poesia da Ana Paula de Oliveira, feita a partir de uma foto de Nair Benedito, tão forte quanto o poema. Juntos podem ser vistos aqui.

 

Ser tão

 

Big bang de carne explodida

Eram só céu arreitado de estrelas.

E ele disse na língua ardida:

- Fundo buraco negro.

 

tempo nublado no carnaval

“Eles são dois por engano. A noite corrige”

 – Eduardo Galeano, trad. Eric Nepomuceno

 

 

um jardim japonês,

pernas banhadas em veludo,

almofadas de tigre.

 

o primeiro tato,

a palma liqüefazia-se em luz

e vc procurava com calma meu umbigo.

 

a chuva fina escorria nas minhas veias

vc descortinava meu sono em mordidas,

e deflorou de leve minha manhã.

 

 

Esse poema foi escrito em um carnaval entre 2002 ou 2004. Está publicado no Rasgada, o Vicente que gosta dele.

 

E estava pensando, começarei a não publicar mais poemas inéditos: pedem-me inéditos como se fosse uma laranjeira em safra, você entende pq as pessoas rejeitam os já publicados? Pior que isso prejudica o Peixe: acredito que o legal de se manter um blogue é exatamente 'sentir' como soam os novos, um mini-test drive, o qual só não dá mais certo pq detemos uma cordialidade excessiva diante da interface eletrônica (a maioria das boas críticas chega por e-mail e não via comentários - mas sempre motivadas por algo postado, não é interessante?).

 

No mais, o Carnaval vai bem e não te abandono nessas horas mortas da internet nos feriadões

É Carnaval

E não perca a enquete nos DOCE ENJOATIVOS!

 

AQUI

janelas olham

Já escrevi em outras praias que me irrita muito alguns rótulos prontos sobre A Rosa do Povo do Drummond. Não é o assunto do post de hoje, entretanto digo que o livro me salvou esses dias, quando precisei de um bom livro de poemas em uma tarde modorrenta, longa e infrutífera – dessas que só as cidades pequenas conseguem nos presentear, após venderem sua promessa citando morros verdes e cachaças raras. Pois bem, caí no engôdo da cidade do ex-governador e o livro gordo de poemas que ajudou a sobreviver às horas mortas.




NO PAÍS DOS ANDRADES

No país dos Andrades, onde o chão
é forrado pelo cobertor vermelho de meu pai,
indago um objeto desaparecido há trinta anos,
que não sei se furtaram, mas só acho formigas.

No país dos Andrades, lá onde não há cartazes
e as ordens são peremptórias, sem embargo tácitas,
já não distingo porteiras, divisas, certas rudes pastagens
plantadas no ano zero e transmitidas no sangue.

No país dos Andrades, somem agora os sinais
que fixavam a fazenda, a guerra e o mercado,
bem como outros distritos; solidão das vertentes.
Eis que me vejo tonto, agudo e suspeitoso.

Será outro país? O governo o pilhou? O tempo o corrompeu?
No país dos Andrades, secreto latifúndio,
A tudo pergunto e invoco; mas o escuro soprou; e ninguém me secunda.

Adeus, vermelho
(viajarei) cobertor de meu pai.


 

EM TEMPO: Ontem uma amiga muito querida distribuiu os convites de seu casamento. A história oficial do namoro é que a primeira noite de amor dos hoje noivos ocorreu na madrugada após o lançamento de Medianeira e Rasgada, estréias do Fabio Aristimunho e minha, edições custeadas pelos autores. Como bem foi apontado no bar: “- Alguém tinha que sair no lucro!”. Ah, a literatura...

A draga

A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna.
- E que fosse uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens.
Dos viventes da fraga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
Ele de noite se arrastava pela beira das casas como um caranguejo trôpego.
À procura de velórios.
Gostava de velórios.
Os bolsos de seu casaco andavam estufados de jias.
Ele esfregava no rosto suas barriguinhas frias.
Geléia de sapos!
Só as crianças e as putas do jardim entendiam a sua fala de furnas brenhentas.
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológico caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo! Ai que dor!
Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial.
Queria 'captura' em vez de 'pega' para não macular (sic) a língua nacional lá dele...
O literato cujo, se não engano, é hoje senador pelo Estado.
Se não é, merecia.
A vida tem suas descompensações.
Da velha draga
Abrigo de vagabundos e bêbados, restaram as expressões: 'estar na draga, 'viver na draga' por 'estar sem dinheiro', 'viver na miséria'
Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Holanda
Para que registre seus léxicos
Pois que o povo já as registrou.



   *  *  *
Datilografei esse texto de “Poemas Concebidos Sem Pecados” do Manoel de Barros (Record, 2005) e, conforme a orelha de Ismael Cardim, o livro, cuja primeira edição é a estréia do autor em 1937, seria uma autobiografia do poeta na infância.
Com o Manoel de Barros aprendi a palavra “macerar”, a qual uso sem a devida moderação, assim como o uso coloquial caótico do pronome “que” (uso que de desordeiro não tem nada): “e que fosse uma casa de peixes?”, “pois que o povo já as registrou”. Puristas, anotem a dica que o poeta já completa 90 anos!

correspondências poéticas

 

a caixa de entrada – a rua augusta engana pela manhã

: com vendedores de água, velhas e papéis de parede,

mas há sempre bancos e guardas armados.

Pois venha lobo que somos todos matilha,

 

a língua no monitor por tuas cartas.

: cartas de luz azulada, de néon emboscado em

vitrines, escolha o sorriso – me lambuzo em falso

e sinto a quentura de presas em meu

 

cangote

por pelagem de carniças e pecados

de diabo velho.

 

– meu querido, me escreveram

que

estamos longe de sermos animais.

 

 

Amor Vincit Omnia,

de Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1601-1602

Óleo em tela, 156 x 113 cm. Gemäldegalerie, Berlim.

 

 

(quando ficar mais acabadinho, publico a dedicatória. um rascunho para você apontar o que não funciona).

Em queda

 

 

 

 

 

 

 

hoje o dia pede luvas,

livro aberto a faca,

feitos e elogios

erradicados

 

(respiração gelada –

    talhante feito carta –

até cessarem as palmas)

 

 

Poema do Thiago Ponce, retirado de Imp. (Caetés, 2005), livro que ando a ler pelos metrôs e horas de almoço. Um dia, não tão longe deste, direi mais a respeito.

 

imagens retiradas do Entrelinhas, matéria “Três Jovens Poetas” com Elisa Buzzo, Annita Malufe e Virna Teixeira

 

 

Não irei tecer comentários sobre a onipresente ausência da poesia contemporânea em veículos de mídia – ilustrativo é o episódio da Carta de Vodka, Esperma y Chocolate de Douglas Diegues (que até agora não respondi, ai, ai, desculpa, Douglas!) na Balada Literária em outubro de 2006.

 

Queria então destacar iniciativas boas (além da coluna da Mônica Bergamo) sobre o tema: pesquisas realizadas em sintonia com a produção poética, as quais frutificam em uma divulgação bem feita sobre a poesia.

 

A primeira é o óbvio Entrelinhas. Dirigido pelo Ivan Marques e com bons coladores como o Marcelo Coelho, Manuel da Costa Pinto, Joca Terron e a Veronica Stigger, o programa traz pela TV Cultura reportagens com um formato legal e acessível. E dá para assistir via web por banda larga ou estreita: aqui

 

A segunda iniciativa ainda é uma sementinha, mas ontem nos obrigou a refletir sobre nossos assuntos poéticos, para quem escrevemos, posturas, caminhos...: duas estudantes do 5º ano de jornalismo irão fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a produção poética contemporânea e uma delas entrevistou-nos durante algumas horas na cozinha da Casa das Rosas (fotos abaixo). Esse é um trabalho que elas desenvolverão durante 1 ano ainda. Corajosas e com bastante vontade.

 

Parece meio bobo, entretanto tudo isso ordenha olhares de fora do “meio”, um ponto de vista-interrogações que nos tiram dos úberes respostas a perguntas que nunca formularíamos – não era mesmo tudo óbvio?

 

Invasão

Ontem na Mercearia.

 

fotos aqui

 

  • Comemorou-se 100 anos de frevo com muitos pernambucanos queridos
  • Reflexões sobre múmias no eterno abraço e segundas vidas eletrônicas
  • Continuação das filmagens do clipe das Velhas Virgens – o Bortolotto conta detalhes no Atire no Dramaturgo aqui. O Bortolotto também publicou 2 poemas do Rasgada acompanhados de foto que dedura certa minha fixação por coelhos, cartolas e lebres.
  • Festejam-se novas terapias medicinais
  • O Paulo Scott nos visita
  • Comenta-se do Peladaço e das fotos da Ivana
  • Afloram-se histórias de famosos pelo passado...

 

E vocês viram a Cléo que linda na Monica Bergamo? - ah, frases redundantes.

O Espírito de Época

 

E eis que o espírito de época

apareceu para mim

nas plumas de um grande pavão

(que eu pensei ser de Yeats):

algumas pareciam círios,

outras abriam um leque

em torno do enorme traseiro,

e, sobre o crânio minúsculo,

o que parecia uma auréola

casta, sagrada e eterna.

Mas com a língua pra fora

do bico entreaberto,

disse apenas:

“Vem aqui e me come”.

 

 

A ironia é um dos poucos recursos que dão conta do mundo de hoje. E esse é um poema que gostaria de ter escrito, já fiz uns rascunhos, mas nada saiu de especial. O autor é o Dirceu Villa e datilografei de Descort (Ed. Hedra, 2003).

 

O Dirceu mantém a Officina Perniciosa no Germina. Indico também para o começo do final de semana sua coletânea A Pornografia e o Erotismo (acho a introdução e a nota de rodapé irretocáveis).

fechamentos

Ontem recebi uma carta. Não é coisa a se divulgar na internet. Mas o tempo chuvoso é apropriado, a gente se torna um gato enrolado em pensamentos.

 

A manhã começou com:

 

Agora estamos sós. Eu e meu texto.

Toureei, adiei este momento. Tenho medo dele desde sempre. Esperei-o com apreensão (e o secreto alívio?) do condenado que vê a noite se dissolver na manhã da execução. Mas o instante está agora entre minhas mãos. Empurra-me para a máquina de escrever”.

 

É chegado o momento em que o burocrático sistema de entrega da Livraria Cultura me permite ler o “Risco de Vida”, romance do Alberto Guzik, cujo prefácio de 1992 começa com a frase acima.

 

E não se trata de nenhuma coincidência essa demora toda da entrega ter batido à porta no momento em que recebo a tal carta misteriosa, fecho o novo livro de poemas e o envio ao editor. Quem gostaria de financiar o terrorismo e financia poetas.

 

De vez em quando, a chuva nos faz acordar como uma criatura trágica, invariavelmente sem unhas perante os edifícios duros, a falta de mitologias no asfalto, o beco sem saídas engolido nas catracas do metrô. E cada movimento de escape nosso, pequeno que seja, funde-se no escárnio do concreto onipresente que nos vende com uma tarja vermelha: “for sale”.

 

linguagens

Hoje o post vai sobre a agenda, já que o blogue do Marcelino continua de férias:

A AIC - Academia Internacional de Cinema está a organizar debates que envolvem temas de literatura e cinema. Para quem nunca foi naquele casarão lindo em Higienópolis, é uma oportunidade.

De minha parte, quero assistir o debate sobre Revistas Literárias - com o Paulo Ferraz (Revista Sebastião), Elisa Andrade Buzzo (Mininas), Andréa Catrópa (O Casulo) e Ademir Demarchi (Babel), dia 8.02, às 19:30h, e a fala do Marcelo Rezende (dia 14.02, 19h). Há outras bem interessantes que os compromissos impedem a onipresença.

A programação inteira: aqui.

Grátis e parece que tem que retirar senhas para as mesas mais concorridas.

jantar para mil talheres

3 destaques na net:

 

- Texto do Joca sobre o aniversário de 8 anos de sua filha

- Santiago Nazarian disserta sobre mouses e teclados

- Poemas da Silvana Guimarães no blogue Folhas de Girapemba. Achei o "AL PUNTO" irretocável.

 

E fotos do corte de cabelo do Gus aqui

 

E uma foto do Zoológico de São Paulo:

dicas da márcia denser

 

A Márcia Denser é uma daquelas grandes damas da literatura. E sempre com muitas lições preciosas para os novatos, sejam lá quem forem. Pois bem, fiquei muito feliz em ver suas dicas sobre “cafés literários” publicadas hoje na Revista da Folha – é isso mesmo: o café da Livraria da Vila, a Rato de Livraria e o Espaço dos Satyros.

 

Sobre a Rato de Livraria, mencionei faz pouquinho tempo por aqui: as meninas dão muito duro para aquele espaço funcionar com a alegria e charme habituais. E sempre têm uma dica de leitura a ver com sua cara, além de conhecerem muito bem a produção literária contemporânea.

 

A respeito dos Satyros e do Sebo do Bac, nem irei falar nada – afinal o Bac é V.I.P., colunável e tem um monte de gente no vegas já imitando seu estilo... Lembrete: não peça pechinchas em livros difíceis de encontrar, isso irrita profundamente nosso querido profissional.

 

Ser rato de livraria e dono de sebo não é para qualquer um. E Márcia Denser então, ah - é uma em cada eternidade.

 

blogues e poesia

A Virna Teixeira escreveu um ensaio no Cronópios com muitos linques e informações sobre blogues literários (ou seriam links e blogs?): Pós-modernidade na rede: a poesia brasileira no século XXI. Mesmo fuçadora, muitos ali não conhecia. Vale a pena!

salamaleques

 

dia de post confessional.

 

sempre carrego a máquina fotográfica comigo, uma dessas de 300 reais do promocenter, funciona muito bem para os propósitos, que beiram estradas longes das artísticas. pois bem, ontem ela não estava na bolsa.

 

e quanta coisa os olhos vêem que não podem descrever. desde as cenas sobre as quais eu apenas ouvi narrações, como os embates entre poetas e grafiteiros pelo lugar na fila do VAI da Prefeitura (edital de fomento bem legal) até a baladadita ontem na Pça. Roosevelt.

 

filmagens do clipe das Velhas Virgens com o Paulão e o Bortolotto, que evocaram objetos, cartolas, crachás do sbt e garrafas com bebidas “cênicas”. registro a frase da Margot sobre cortes de cabelo: “com a faca é melhor” - ressalte-se sua experiência sobre o assunto vivenciada profissionalmente na Alemanha. e o leque achado na calçada – onde mais nesse mundo se acharia um leque perdido na calçada?

 

por fim, iremos cortar o cabelo do Gus hoje à noite, quem quiser participar da cerimônia... o Ivam lindo já disse que estará no comando.

 

 

foto: o leque e a máquina

 

february mon amour

janeiro não disse a que veio.
mas fevereiro bateu na porta
e prometeu altas coisas.
'como o carnaval', ele disse.
(fevereiro é baixinho,
tem 1,60m e usa costeletas.
faria melhor propaganda
do festival de glastonbury.)
pisquei ligeira nas almofadas:
'nem tô, fevereiro.
abandonei o calendário.'
'você é um saco', ele disse.
e foi cheirar no banheiro


Angélica Freitas
em Cuatro Poetas Recientes del Brasil, ed. Black & Vermelho




para aqueles que preenchem prazos e formulários na madrugada e percebem a grande verdade proferida pelo Marcelo Montenegro sobre a complexidade dos campos estranhos com caracteres contados: “parece que é de propósito”.


quem linka o peixe
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