el quati - o imigrante (ilegal)
vida doméstica

 

 

(für Bêto)

 

O jardim aqui de casa é ainda um pequeno refúgio, trincheira minúscula que minha mãe protege com carinhos diários. Contudo, nesse planeta de ponta-cabeça não há o que permaneça inalterado: seja por falta de espaço ou comida, o grande emplumado Bem-Te-Vi atacou e desmanchou por duas vezes o ninho da acanhada Mariquita. E a última investida foi revestida de intensa crueldade: dentro havia um ovinho.

 

Muito preocupada com esse estado de coisas disparatado, mamãe dirigiu-se a uma ampla loja de conveniência para animais. Lá na seção de aves, a veterinária para minha mãe: “É maritaca e não mariquita”. Mamãe replica: “Mariquita”. E aponta o livro de ornitologia. Sim, mariquita e diplomada com nome científico. Novamente mamãe expõe a situação drástica à garota de branco e o que deveria fazer. A veterinária enfim desfia o trágico: “Não entendo de pássaros silvestres. Somente cuido de pássaros que vivem em gaiolas”.

 

 

Ao final, foi comprada uma casinha de barro (na foto está ao fundo). E colocada exatamente onde a Mariquita fizera e refizera seu ninho. Contudo, não há edificação que substitua todos aqueles raminhos coletados e rearranjados durante dias. Minha mãe é da geração que sonhava em mudar o mundo e desafiar a ordem posta. No entanto, agora se defronta com a boca de nosso destino comum: remendar, às vezes com coisas compradas, o que ainda pulsa vivo.

 

Hoje tem CAI MAU! Comemoram 2 anos de atividades!

+ aqui

 

arte Marcus Binns

el vértigo de los aires

 

Finalmente tenho um tempinho para te narrar devidamente:

 

Sim, nas próximas 2 semanas estarei no México para o encontro “El Vértigo de Los Aires” - Encontro Latino-Americano de Poetas, com o apoio do Ministério da Cultura. Preferia que o Donny, o Ponce e o Edu Lacerda tivessem ido comigo, mas não rolou... Enfim, o portuñol será deveras selvagem...

 

A programação é bem extensa, eventos diariamente, leitura, debates em diversos locais da Cidade do México (já percebi que o descolado é dizer “México D.F.”), nos principais Museus (Estanquillo, Museu da Cidade do México e o Museu Muralista Diego Rivera) e também com algum prolongamento na UNAM – Universidade Autônoma do México.

 

O que me chamou a atenção é o nome de duas mesas “Panorama de la poesía latinoamericana en los últimos 30 años” e “Editar en Latinoamérica” - será que realmente há uma construção sobre esse “todo” América Latina? Enfim, uma de minhas curiosidades é essa. Por aqui, poucos teriam condições de discorrer alguma coisa sobre esse assunto (ou falo bobagem?).

 

No mais, como a bagagem é pouca (mas levarei livros de queridos para trocar com os hermanos), digo que se vc não cabe na mala, não passe vontade: logo, logo, teremos no Brasil o “Tordesilhas”, evento que reunirá diversos poetas latinos, em São Paulo, pertinho. Anota.

saudação à primavera! prepare-se

As Satyrianas esse ano prometem! O projeto DRAMAMIX reunirá 78 dramaturgos com 78 peças curtas em cartaz. Contribui com um texto “O Amor nos Tempos de Câmera” – quando tiver mais detalhes sobre a montagem, aviso. Outros escritores, como o Rafael Daud e o Juliano Pessanha, também contribuíram com peças. Ah, que coisa boa. É para lavar as fuças de quem não perce o que se passa nos 'subterrâneos' dessa cidade.

Na foto, os lindos e doidos idealizadores: Claudia Vasconcellos, Rodolfo, Guzik, Ivam (e o Gerald Thomas, que por hora não conheço).

Também durante as Satyrianas, a VACAMARELA organizará no Satyros da Vila Madalena bate-papo sobre literatura contemporânea com comidinhas, à tarde, entre as árvores... Dia 13.10 e dia 14.10, com os escritores Andrea Catropa, Dirceu Villa, Paulo Ferraz, Ivan Antunes, Carlos Galldino e Marcelino Freire.

E você? Programe-se que será tudo. Não me vá ficar assistindo TV...

em breve no site d’Os Satyros e nos melhores portais do gênero

3 das andanças de ontem

de costas para o começo da berrini – zona sul

 

bancas de flores na dr. arnaldo – zona oeste

 

esquina da lelê – centro.

Behind you

(hoje creio que noticiarei certo, querida Emília!)

 

Esse poema do Richard Price está na Ovelha Negra (Black Sheep) - Uma Antologia de Poesia da Escócia do Século XX, traduzida e organizada por Virna Teixeira.

 

Poderia escrever muito sobre o poema, mas ando com bode de paráfrases, análises críticas, sinta quem lê, diria o Pessoa - e o poema te deixará mais chuvoso do que os céus ameaçados dessa cidade. Vestidos de noite usados de dia.

 

A iniciativa é fundamental para materializar esses tantos diálogos que acontecem entre fronteiras. A capa linda e simples é do Francisco dos Santos, Editora Lumme. Lançamento no dia 27 de setembro. Centro Brasileiro Britânico. R. Ferreira de Araújo, 741.

 

Behind you

 

I love you.

 

I’m nostalgic

for us and this table,

note the cups stacked up.

 

I said

nothing at work.

 

That painting behind you

is yours, a gift,

figurative and sensual

(open, even so, to abstraction)

 

The clock can’t be read

on Assurance Buildings.

 

Remember instead

(rain, tomorrow, too)

you were you,

we were us,

I was mine.

 

It was

British Summer Time.

 

 

Atrás de você

 

Eu te amo.

 

Estou nostálgico

por nós e por esta mesa,

note as xícaras empilhadas.

 

Não contei

nada no trabalho.

 

Aquela pintura atrás de você

é sua, um presente,

figurativo e sensual

(aberto, até mesmo, à abstração).

 

O relógio não pode ser lido

sobre a Corretora de Seguros.

 

Ao invés disso lembre

(chuva, amanhã, também)

você era você,

nós éramos nós,

eu era meu.

 

Era o

Horário Britânico de Verão.

Dobras, livro de contos

Em breve haverá o lançamento do Mario Rui Feliciano, esse fotógrafo adorável que agora sai do armário enquanto contista – Dobras - aguardem!

Dia 23 de outubro, 19h na Feira Moderna, Fradique Coutinho, nº 1246 Vila Madalena. (desculpa, não resisti ao trocadilho bobo)

É difícil escrever depois da meia-noite. Pois normalmente me assombro com tanta facilidade, que tendo à pieguice. Ai, Del querido, um dia serei apenas sarcástico como você?, sinceramente prefiro não, hihi.

 

Hoje li APRESENTAÇÃO DISFARÇADA DE PREFÁCIO escrita pelo Alberto Guzik ao Acordados, meu “romance do PAC”. Deu friozinho na barriga quando o arquivo chegou lá no gmail. E quem acompanha o meu blogue predileto, sabe que entre Valle-Inclán, Hitchcock e a falta de chuva nessa cidade, esta criatura extraordinária estava gestando, gestando a arquitetura dessa incumbência.

 

Bem, após ler o esperado franco e agradável texto de nosso querido Alberto, digo que o “Acordados – fragmentos” funciona. Percebo que o que eu mais temia, soar cheia de mesuras & salamaleques gratuitos, graças a algum deus profano não se realizou, saravá! O querido prefaciador conseguiu entender a trama, os propósitos, as inversões, as personagens caricaturais, enfim, comunicamo-nos!, e lindamente. Um trechinho para acabar já com as expectativas de enredo, hehe:

 

Qual a trama costurada por Ana, em meio a tantas (re)invenções narra-tivas? É simples, quase banal. Gira tudo ao redor de uma reunião de negócios (o eixo de “Mrs. Dallaway” é a organização de um jantar, lembram-se?), onde será discutida a destinação do entulho que restará da implosão de um grande presídio em uma grande cidade. Pode-se pensar em um assunto mais sombrio e banal? Que sinistra sociedade tem de fazer reuniões de alto nível para desti-nar o entulho do que um dia foi uma sombria prisão?

 

Viu como entendeu tudo? Sou uma criatura tão feliz. E amanhã conto do México. Agora irei dormir, espero que sem sonos. Ontem sonhei que me pediram um poema "simples, que acalentasse nossos corações" - é mole? Estou ficando paranóica - ou qual seria a classificação apropriada, Rafael Daud? E se confessar que estou rascunhando o poema? Obsessiva?

 

Ps.: Vc pode adiantar-se e conferir no blogue da Virna Teixeira o lançamento da quinta-feira... Ovelha Negra – hum, ainda postarei.

o começo do mundo em 2 linhas

 

o homem nu               anjos aguardam suspensos na banheira,

 

até a hora, entre espumas, em que consegui avistar seu sexo.

 

 

 

 

Lucian Freud, Painter and model, 1986/87

(Mark Harden's Artchive)

 

(Querido amigo, conhecia essa figura do Freud? Creio que daria para trabalhar com nossa Vênus Anadyomène em discussão com a Vênus do Botticelli... Aliás, viu que inseri o dedinho dessa banheira do Rimbaud, culpa tua. Mas claro que tenho outras ajudas figurativas que ajudam, ah, ajudam...)

 

E chega de dísticos por aqui. Bom final de semana.

mais soluções...

(se você não acompanhou a história, basta ler os posts abaixo. na internet a gente fica assim igual siri, de trás para frente)

 

Dirceu Villa (que começou o papo), o demônio amarelo - Che vuoi?, para minha "coleção de dísticos colossais pangnômicos":

 

ZEVS ARRHENOTHELVS

                                        

Electro-Zeus fez tudo num estalar de dedos:

agora resta só brincarmos com os brinquedos.

 

Ivan Antunes, do O Tatu Bola

 

grande estouro dum estalo de dedo divino: fez se a bola amorfa de azul

depois verde nalgum dia um polegar opositor mudaria drásticamente a cor.

 

Polly linda, seguindo as "instruções do edital postado no Peixe", sendo poéticamente engraçadinha:

 

Irreversível

 

Enter...

Backspace! Backspace! Backspace! Backspace!

soluções para o "desafio"

Bem, recebi várias contribuições sobre frases de amor (obrigada! gracias! danke sehr!) e sobre o “poema sobre o começo do mundo em 2 linhas”.

 

O engraçado é que dá notar direitinho que a noção sobre a formação de mundo dedura bastante como as pessoas que a redigiram pensam – ao menos para as que conheço melhor. Indicarei para psicólogas de RH como substituto às bexigas coloridas de dinâmicas de grupo em seleção de emprego...

 

Seguem! Amanhã posto as minhas 2 linhas só para fazer suspense de 5ª categoria. 

 

Ricardo Miyake, “O meu poema sobre a formação do mundo seria uma apropriação direta do Bardo”:

 

Muito barulho

Por nada.

 

Do homelupus.weblog.com.pt, esses dois versos de uma música que foram escritos pelo Lorenz Hart, um mestre do Jazz, música que foi gravada pela Nina Simone e pela Janis Joplin, mais um milhão de outros, mas que eu conheço mesmo na voz do Chet Baker (que aparentemente é o único a cantar a letra completa). Eu acho que são dos versos mais bonitos do Jazz”:

 

When I was very young the world was younger than I

As merry as a carousel

 

Julia Lima I, a primeira contribuição:

 

Zeus

 

És senhor do mundo

Deixa que brilhe, nasça, culmine e ponha.

 

Julia Lima II, “Ih, nasceu mais um!

 

disse o homem

 

Ele me deu o mundo

mas esqueceu o manual de instruções...

 

Nícollas Ranieri: 

DIALÉTICA

 

e deus disse: faça-se a luz!

e lúcifer se fez

 

A nota interessante é que Victor Del Franco tem um com mote semelhante em "O elemento subterrâneO" (Demônio Negro: 2007): 

GÊNESIS

 

e disse Deus:

haja Lúcifer.

 

Mas o Victor Del Franco enviou-nos elegantemente "em rendondilha maior":

 

ONÍRICO

 

Deus sonhou o Paraíso,

acordou no pesadelo.

 

Da Maiara Gouveia, a segunda corajosa contribuição:

 

Deus, preso nas gônadas dum sonho, antes do Fiat Lux, deixa escapar um palavrão escabroso: os funcionários do nihilo ficaram confusos.

 

Guilherme Almeida, el palindromista-trocadilhista:

 

HISTÓRIA DO MUNDO, PARTE ÚNICA

 

De verbo em verbo

Até o ponto final.

 

Geraldo Vidigal, diretamente de além mares (cujo blogue figura em entrevista em guia de emprego aqui):

 

A caixa de Kant

 

acordados na noite,

forjamos o sol

 

Paulo Moura, o mestre:

 POEMA SOBRE A FORMAÇÃO DO MUNDO EM DUAS LINHAS

 

faça-se,

mas não antes do tempo.

 

Rafael Prince, um acadêmico de letras:

verborragia

 

não era bem isso

que Eu tinha pensado 

desafio continua

Rá! A proposta de poemas cosmogônicos em 2 linhas vai de vento em popa (para não usar expansionismo railwayiano do “a todo vapor”)! Já recebi 3 respostas e eu mesma redigi a minha. Agora a Maiara, essa grande senhorita, anuncia em seu blogue.

 

                  E vc?

poema do mestre

Hum, sei pelo contador que não estou sozinha por essas paragens. Entretanto, só a dona Júlia Quati-linda colaborou com comentários à frase de amor ou poema sobre a formação do mundo em 2 linhas (postagens abaixo. Aliás, digo que consegui escrever o tal poema de 2 versos - sim, mas hoje tenho outra coisa para vc

 

: procurei bastante um poema do Brecht esses dias. E engraçado que não só topei com essa tradução do Bandeira na internet ontem, mas ainda tivemos em aula uma leitura em inglês do próprio. Ah, então está eleito). Enfim, aí vai o poema quebra-pedra de hoje.

 

 

Aos que vierem depois de nós

 

Bertolt Brecht

Trad. Manuel Bandeira

 

I.

 

Para as cidades vim em tempos de desordem,

quando reinava a fome.

Misturei-me aos homens em tempos turbulentos

e indignei-me com eles.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.

 

Comi o meu pão em meio às batalhas.

Deitei-me para dormir entre os assassinos.

Do amor me ocupei descuidadamente

e não tive paciência com a Natureza.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.

 

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.

A palavra traiu-me ante o verdugo.

Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes

Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.

 

As forças eram escassas. E a meta

achava-se muito distante.

Pude divisá-la claramente,

ainda quando parecia, para mim, inatingível.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.

 

 

II.

 

Vós, que surgireis da maré

em que perecemos,

lembrai-vos também,

quando falardes das nossas fraquezas,

lembrai-vos dos tempos sombrios

de que pudestes escapar.

 

Íamos, com efeito,

mudando mais freqüentemente de país

do que de sapatos,

através das lutas de classes,

desesperados,

quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

 

E, contudo, sabemos

que também o ódio contra a baixeza

endurece a voz. Ah, os que quisemos

preparar terreno para a bondade

não pudemos ser bons.

Vós, porém, quando chegar o momento

em que o homem seja bom para o homem,

lembrai-vos de nós

com indulgência.

outra tentativa.

Como o único comentário até agora ao post abaixo foi a Maroca chamando-me para almoçar (pior, não fui), outra tentativa de te provocar

: conversando com um amigo querido sobre poemas cosmogônicos & cia (sempre imensos!), afirmei que iria então escrever um poema sobre a formação do mundo em 2 linhas*. Enfim, coisa de mesa de bar, e como em promessas de advogados e poetas não se deve confiar, desafio o próximo (que, no caso, é você) a me sugerir os 2 versos.

No mais, o vídeo sobre o primeiro Popular lá no b_arco tá bem legal. assista aqui

 

* ah, sim, a única coisa que figurativizei para o tema foi Hiroshima. Nosso mundo é isso, não?

flores nunca foram para mim

 

A vida tempera-me. E creio que aceitar isso se assemelha a um princípio de sabedoria que começa a brotar em meu cérebro minhoquento...

 

Após um estágio trabalhando temas como pornografia (aguarde, o processo editorial é lentíssimo, gott sei danke), escrevendo sobre o “amor” e suas relações com o mercado financeiro - "estou in-ves-tin-do nele!", fizeram-me alguns pedidos para superar isso.

 

O primeiro foi da Cláudia Vasconcellos, que é dramaturga e começou a trabalhar na querida Praça Roosevelt. Nas Satyrianas, Saudação à Primavera, haverá apresentação de vários textos e contribuí com uma peça curta, “O Amor nos Tempos de Câmera”. Hum, a classificação pode ser 'comédia ligeira', embora eu não responda por gêneros nessa altura das coisas e o sarcasmo ainda é a tônica dominante nessas paragens.

 

Claro que sou maldosa sobre “apaixonar-se”, não perco nenhuma oportunidade quanto a isso na minha cruzada pessoal contra o melodrama (risos), contudo o final do texto propõe alguma outra coisa que talvez dê certo. Não sei, depende de várias coisas. Avisarei o quando será, aí você me conta.

 

O segundo, e é aqui que você entra, foi um pedido da Tânia, minha irmã de vida, que irá casar e pediu uma frase para seu convite de casamento. E como o casamento dela é um dos mais bonitos, tranqüilo e sincero como se deve, deixo que você compartilhe comigo isso: a alegria de escolher de uma frase de amor.

 

E não me venha com essa que é difícil, pois acredito que nos tempos de hoje seja impossível. E infelizmente pedir o impossível é a única coisa sã a se fazer no momento.

 

 

(aguardo nos comentários)

Ilustração do insuperável

ah, esse povo que adora uma velharia...

0:51 e não acabei o que precisava. O horror é trabalhar com o texto o tempo inteiro, seja poético, amoroso, técnico, falso, alheio. Estafada, dá-me alento a tradução do Dirceu querido, sobre a origem da flauta do pobre Pan que julgava ter presa já a ninfa Syrinx, mas

 

prendeu, ao invés de seu corpo, um maço palustre de cálamos,

e, quando suspira, movendo nas canas o vento,

efetua um som tênue

semelhante a um lamento.

 

continua aqui

OVÍDIO. Metamorfoses: I, 689-712

the sick rose

Continuo com poucas palavras por essas paragens. Mas escrevo muito em outras. Na segunda, voltarei talvez. O final de semana foi lindo, cheio de amigos & coisas boas.

 

Por hora digo, sai de frente dessa tela, não assista tevê e vá ao teatro. Do cinema também desconfie, aliás, de tudo que se pretende arte, o entretenimento deflora como uma praga carniceira qualquer rosa em botão. E não me reclame, quanto o mundo é difícil. A simplificação é o que faz florescer o estupro.

 

Ah, rosa, linda rosa, quanto mais te despedaçam, mais te sinto milagrosa, já disse o Gus. E pensar que a gente escreve isso com lágrimas nos olhos.

 

The Sick Rose, William Blake

Vacamarela!

Muitas coisa, depois conto. Principalmente sobre o lançamento do Horácio Costa ontem - não fui... tristeza.

 

E hoje você irá ao SESC Consolação conosco, não?! No blogue do Del Franco tem tudo. Até mais tarde.

para as marocas

Depois de umas 72h quase só pensando nisso, resolvi um problema criativo do final de semana! Gus, eu já sei qual será o final! Maroca, depois te conto. Agora passarei a noite inteira escrevendo, só por vingança, tem que ficar direitinho. Do quê? Ah, o mundo é amplo. Contudo, no momento, de pessoas chatinhas que se têm muito em conta e adoram usar a internet para ignorar os outros (ana r. assumindo as dores alheias).

 

Hoje um poema do Del querido, também um filho de 11 de setembro. Adoro o poema, lembra-me a infância e suas histórias loucas do Andersen, com o travo desse nosso querido escritor. A foto é do Diego Carrera (no link aqui ele fala de sua viagem à Lille).

 

 

Sobre a Paixão

 

A criança,

Piromaníaca,

Se esconde no canto,

Com uma caixa de fósforos.

 

Risca o primeiro fósforo:

 

Um estrondo enorme,

Uma estrela-cadente sobre as unhas,

 

Risca mais um

Risca mais um

 

Às vezes

O indicador se agita queimado.

 

Risca mais um

Risca mais um

 

Aos poucos,

Com a caixa desgastada.

O fósforo não acende mais tão rapidamente.

O som do fósforo gagueja como as faixas gastas de pólvora.

A luz se torna repetitiva e fosca como o piscar óbvio de um aparelho eletrônico.

O polegar e o indicador, experimentados, não se queimam mais.

O piromaníaco, os fósforos, a caixa, queimados, cansados, enrugados, afogados esperam a morte.

sobre o papel de luz

Participarei da BLOOKS, exposição da Oi Futuro no Rio de Janeiro que pretende discutir as relações entre blogues e livros, com a curadoria da Heloisa Buarque de Hollanda, Omar Salomão e Bruna Beber. leia + no "Blog de Guerrilha"

 

Achei bonitinho que “blooks” também significa a gíria para curinga em cassinos norte-americanos – sinto-me um pouco assim nessa exposição. Os Sete Novos farão performance e a Dona Faleiros também participará. Às vezes, um baralho inteiro pode ser constituído por curingas.

 

 

The Fool and The Lady, Hans Sebald Beham (1500-1550)

 

Lugar Comum 14: Madrugada

 

teus desejos longe dos meus

gelo e vodka mexidos por entre os dedos

calçadas curvas

 

queimam mendigos,

acontecimentos estranhos nessa cidade,

Jokerman, Jokerman,

Você continua a rir alto demais

 

El Truco!

 

E o feriado guaxiniesco alcança o domingo.

 

Ontem foi dia d’El Truco! Do Núcleo Experimental dos Satyros (NES). Adorei a peça. E efetivamente não rasgo elogio assim na calçada de bar para qualquer um (ou não, hehe, em advogados e escritores não se pode confiar nada...).

 

Fiquei superfeliz em ver a Ana Pereira, o Wagner Mendonça no palco, os meninos todos fantásticos, muito seguros, ousados, impressionante mesmo. A Andressa Cabral está virando um pequeno monstro, nossa, essa daí desabrochou como uma extraordinária fleur du mal. O Laerte está deslumbrante, a Cléo tão lindamente perversa, enfim, ficamos umas 2 horas depois discutindo isso, ah, o público. O melhor é que a retardada aqui teima em não reconhecer o Ivam quando ele entra em cena, sei lá, a criatura se transfigura tanto, acho isso incrível - isso que já vi o ator amado umas milhões de vezes no palco...

 

O enredo é por si só bem sagaz: no meio de uma certa guerra, todas as personagens estão dentro de um bunker. Aí um diretor, meio que para “animar os ânimos” inventa de ensaiarem um musical - "sonho de uma noite de verão", hahá, o dado da alta cultura está ótimo. Que obviamente & invariavelmente não consegue esconder a violência, crueldade e neuroses da situação. Qualquer semelhança com o Teatro Abril é mera coincidência.

 

Bem, claro que há gordurinhas e pontos sem fechamento – mas para mim, essa é exatamente a graça!, dado que a própria proposta é expor essas questões do “engatinhar criativo” - ou alguém é tão seguro assim de si mesmo? Emociona-me sobretudo essa coragem de se expor.

 

O horário é ótimo: sábado e domingo às 18h.

+ leia aqui crítica na Revista Bacante

[EM TEMPO 1] O Cláudio Daniel ministrará 2 encontros Pensando a Poesia Brasileira na Academia Internacional de Cinema: “Na ocasião, falarei sobre as principais tendências estéticas de nossa poesia praticadas nos últimos 50 anos, como a Poesia Concreta, o Tropicalismo, a Poesia Marginal, a Poesia Visual, entre outras vertentes”. Dias 11 e 18.09, das 19h às 21h, gratuito. + aqui

 

[EM TEMPO 2] Terminei a edição especial da EntrelivrosPanorama da Literatura Inglesa”. Apesar do preço assustador, o volume está muito bem feito, com ótimos ensaios do Marcos Soares, Fábio de Souza Andrade e outros bons resenhistas. Indico veementemente.

um epigrama

 

minha pele ainda ressoa melodias de ontem à noite.

 

era como se saíssemos de uma casa de concertos

e a memória continuasse a cantarolar.

 

Orestes assassina Egisto e sua mãe Clitemnestra

Bernardino Mei (1654)

orestéia e outras andanças

Gostaria de evitar entrar aqui. A Constança mesmo observou com seus olhos de artista: esse nome é um pouco claustrofóbio, “Peixe de Aquário”. Sim, resta claro que é – infelizmente não apenas o blogue, a cidade poluída também, as pessoas que trabalham o dia inteiro trancadas. Ou é só uma impressão minha?

 

Contudo, tive que escrever. Ainda não sei exatamente o quê, mas a cabeça de medusa cortada aqui dentro já deslinda seu cavalo com asas que emerge e me tira deste quarto, claustritinho tão pequeno e bagunçado... Gente, o que é essa montagem do Folias? A Orestéia! Deus meu, continuo impregnada pela peça de ontem à noite, isso que depois ainda passei na querida Praça Roosevelt (já conto), acabo de tomar café para ver se acordo, tomei banho para ver se passa. Entretanto, sinto na pele ainda tudo...

 

Largo ao Gus fazer um texto crítico sobre a peça – respondo um dia com um poema, não sei ainda [Aliás, Gus, conversei com os Ursos e essas criaturas perfeitas em meia palavra já entenderam tudo – depois quebramos mais pau, hehe].

 

Mas preciso anotar que a tragédia grega de enredo, a proposta de falar da história recente do Brasil, tudo encaixa-se (ou não) de maneira fantástica. Os atores são ótimos, contidos nas horas certas, performáticos da mesma forma - a Cassandra, a Electra (maravilhosa!). O Dagoberto Feliz faz um palhaço que dá vontade de abraçar – é tão triste o que ele fala... pq é tudo tão verdade... E a gente não chora, latino-americanos dão risada, é isso? Claro que é mentira.

 

O mais engraçado (trágico), entretanto, é o comentário na Veja São Paulo sobre a peça: "A vingança de Orestes, base para Coéforas, remete à repressão dos anos 60 e 70, e seu julgamento, tema de Eumênides, critica o exercício do poder. Não por acaso, tudo é conduzido por um palhaço e acaba em festa" - entendeu tudo!, hehe, elaiá. Leia vc mesmo para ver que não minto: aqui

 

Sobre o passeio na Roosevelt pós-peça, bem, aquilo ali é um lugarzito protegido pelos deuses, um pequeno vulcão forja, onde trabalham os titãs coxos, imagino, mas de onde saem os raios de zeus. Papeei com o Ivam amado, que me apresentou a nº 1, primeira expectadora deles, moradora da Praça. O Ivam nos raptou para assistirmos O Santo Parto - é chocante que certas igrejas queiram processar a peça pela existência de um “padre grávido”... Imagino que se fosse a Rede Globo estaria tudo bem... A Phedra contou sobre o filme de ontem, como adoro ouvir essa grande dama e seu palavrólio.

 

Acabamos com prosa de 10 minutos com o Bac. Ele contou daquele concurso ótimo sobre poesia falada nos Parlapatões. O Bac estava tão feliz – muitos poetas estavam presentes e bem talentosos, disse que foi lindo, tenho certeza que sim. Anotei mentalmente o nome do Ruy Mendes, quero ler o cara.

 

Agora chega. Hoje ou amanhã irei assistir El Truco, do núcleo experimental dos Satyros. É muito importante prestar atenção nesses trabalhos em nascedouro. Guaxinim, valeu pelas andanças!

 

(E mesmo ao final disso tudo, continuo sentir o tal canto do bode na pele... a memória continua a cantarolar).

Minha senhora de mim

Minha senhora de mim

 

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

 

sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço

 

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

 

nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços

 

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

 

recusando o que é desfeito

no interior do meu peito 

 

de Maria Teresa Horta

Editorial Futura, 1974, Lisboa, Portugal

 

A foto lindíssima é a própria Maria Teresa

pela fotógrafa Graça Sarsfield

in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001

Recebi e-mails lindos esses dias. E telefonemas fofos. E convites para passear. Não, sem tempo para respondê-los. Aliás, para quase tudo. E me cobram, eu sei, contam aquela historieta batida do pequeno príncipe e da rosa, como se tudo se resumisse a um pacto obrigatório entre carência e chantagens pela amizade.

 

Entretanto, como solicitar às pessoas a sairem desse esqueminha que adoram? Esse esqueminha que as consome e fantasticamente suga-lhes quaisquer outras preocupações? Não tenho a violência necessária a dar olhos para pedras cegas, uma tradução tosca dum verso do Ehrenstein.

 

Por essas coisas todas, fico mais quieta, largo um poema da Maria Teresa Horta, poeta portuguesa que a rotina insandecida não permitiu que a conhecesse pessoalmente ontem, e volto no meio da semana que vem.

 

Queria dedicar à Aninha Paula Ferraz e ao Alberto Guzik, que foram bem especiais esses dias (e sempre).

gracinha

Um querido amigo hoje foi ao Canadá. E meu irmãozinho está também longe daqui. De certa maneira evito a idéia de distância para algumas pessoas especiais – basta um telefonema ou e-mail e parecem que já estão aqui ao lado! Assim espero.

 

Posto, então, um poema do Walt Whitman – que nos lembra certa aula - a esse grande amigo de faculdade, que agüentou minhas piadinhas infames durante 5 anos, iluminou aulas sobre discurso com observações curtas e pertinentes (ah, comentários fofoquentos) e prestava atenção a discussões infindáveis sobre métrica elizabethana. E claro, informou todas as datas de entregas de trabalhos! No México, juro que evocarei o Dedo de La Chica per te, boy. Cuide-se.

 

 

I saw in Louisiana a Live-Oak growing

 

I saw in Louisiana a live-oak growing,

All alone stood it and the moss hung down from the branches,

Without any companion it stood there uttering joyous leaves of dark green,

And its look, rude, unbending, lusty, made me think of myself,

But I wondered how it could utter joyous leaves standing alone there

without its friend near, for I knew I could not,

And I broke off a twig with a certain number of leaves upon it,

and twined around it a little moss,

And brought it away, and I have placed it in sight in my room,

It is not needed to remind me as of my own dear friends,

(For I believe lately I think of little else than of them,)

Yet it remains to me a curious token, it makes me think of manly love;

For all that, and though the live-oak glistens there in Louisiana

solitary in a wide flat space,

Uttering joyous leaves all its life without a friend or lover near,

I know very well I could not.

 

 

Foto: conseguindo autógrafo do Coetzee para o tal amigo. O livro peguei emprestado para a matéria de "Literatura e Diferença" e até hoje está aqui em casa, ai, ai.

sobre lugares que não conhecemos

Recebi um email com poema da Constança Lucas, escritora e artista plástica. Depois procurei outros trabalhos seus na internet, descobri aos poucos que é portuguesa, professora e publica na net desde 1997... e que como desenha!

 

No Germina há vários: aqui. Fico sempre um pouco impressionada com essas capacidades... Aí vai o poema.

 

 

Postais ou Sonhos de onde nunca fui

 

Postais de Helsínquia trazem-me vozes de águas intrépidas

onde o sol não se põe, a noite não sorri, por meses nas ilhas

os corpos cruzam os gritos libertos e amam-se no longo verão

no fulgor dos dias lambem as vozes e conversam em beijos

 

Postais de Luanda recriam-me baías de águas mornas e adocicadas

onde o sol se estende e os pés adormecem na noite cálida

o vento transporta melodias diferentes pelos corpos atordoados

no espanto da invenção diária de um quotidiano renovado

 

Postais de Saragoça povoam as cores de Goya nas águas do rio

o sol escalda as peles desnudas, as noites bailam ritmadas

as pedras contam as mágoas em sons entoados e astutos

nos abraços as ancas enredam-se em cânticos prazeirosos

outras carnes ao comedor de filhos

"Saturno entra no seu signo hoje e aí ficará por dois anos. A forma de usa identidade será outra, passados estes anos. Haverá testes para forjar seu espírito em material mais resistente" - horóscopo do dia.

 

Decretado: nasci às 6:20h do dia 14 de setembro de 1979 e meu ascendente é virgem. Virginiana com ascendente em virgem – perfil exato para a biblioteconomia. Deveria é funcionar com a arrumação de meu quarto (um caos!). E agora entra o comedor de filhos, Sr. Saturno, em meus céus, por dois anos. A grande dama, Alice Ruiz, essa que me inspira tanto, bem que advertiu certeira num certo dia sobre os efeitos de Saturno nessa idade. Rogo a meu planeta, Ilmo. Sr. Sol, que ofusque a criatura cheia de seus anéis, antigo deus Cronos, que poderá cortar minhas asinhas da onipresença & outras mágicas temporais.

 

Mística ou não, agosto foi mês conturbadíssimo e, passado esse período brumoso, respiro um pouco aliviada por hora. Sim, deixa-me contar as boas novas, enquanto seu comedor de filhos não vem:

 

[1] Fechei o “Acordados – fragmentos”! O tal romance que escrevo faz taaanto tempo e enlouqueço sistematicamente, como boa virginiana, os queridos que me cercam. Não que as crises sucessivas tenham passado por completo, mas o alívio de encaminhar o bichinho à revisão me dá alento por hora.

 

Outro grande motivo de alegria é que algumas pessoas que adoro toparam dar contribuições à edição – escrever apresentação, realizar a revisão, diagramação... ou você acha que o processo industrial é simples? E ainda tenho que seguir ipsis literi as especificações do edital do PAC, bolsa de criação literária da Secretaria da Cultura que permitiu a realização desta edição.

 

[2] Irei para o México em outubro! Participar do Encontro EL VÉRTIGO DE LOS AIRES – Encontro Latino Americano de Poetas. Pode deixar que te deixarei a par. O mais interessante é que aos poucos minha caixa postal está sendo contaminada pelas trocas en portuñol.... Contarei logo sobre essas trocas, tudo de bom.

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