geração zerada

Hum, ia escrever sobre um livro interessantíssimo, contudo, fiquemos nos recados. Na sexta, na Casa das Rosas, após 15 encontros sobre Gerações de Poesia no Brasil, haverá o fechamento do curso.

 

O Paulo Ferraz tratará da Geração 00 numa entrevista comigo (ai, ai, pior que estou/sou em crise, já admiti para mim mesmo a impossibilidade de dizer algo por qualquer tipo de geração, de totalidade, bem, bem, começaram as pós-modernices, oh, deus, que-deus?, estou contaminada, hehe).

 

Depois, para deixar os ânimos alegres, como se convém a esse país festivo, teremos o lançamento da Confraria do Vento - 2 anos da publicação. Como a Maroca e outros confiáveis elogiam muito o trabalho deles, digo que vai ser tudo lindo. Além de conhecer/rever figurinhas cariocas ótimas. O Márcio-André concedeu uma entrevista ao Digestivo Cultural sobre esses 2 temas: a tal Geração Zerada e a Confraria. Trecho:

 

"Pois superar as diferenças, na prática, é tornar as diferenças irrelevantes. A Confraria parte, ao contrário, da idéia de que é preciso eliminar a intolerância à diferença. Aceitar as diferenças enquanto diferenças, sem que para isso, uma diferença anule a outra. Esse segundo movimento encontra respaldo na própria complementaridade da física moderna, a qual, para não enlouquecer diante da indeterminação das partículas, aceita que informações excludentes entre si sejam concomitantemente verdadeiras, sendo o confronto destas a única forma possível de descrever o objeto observado". + aqui

 

E aproveitem enquanto é tempo! Em 2010 vencemos! Liquidamos! A validade, beibe.

 

Serviço: Casa das Rosas, sexta. Av. Paulista, 37. Leitura de Marcelino Freire, Fernando Bonassi, Silvio Fiorani, Márcio-André, Victor Paes. Entrevista pública com Ana Rüsche, por Paulo Ferraz. A partir das 19h, grátis.

as mulheres gozam pelo ouvido

 

no b_arco amanhã temos o sylvio back. com exposição de xilogravuras, erotic pocket show, enfim, o demônio negro não dá ponto sem nó.

 

eu iria, vai ser festão.

+ poemas do sylvio aqui

+ tudo sobre o lançamento aqui 

 

o blogue

 

 

 

 

 

 

 

o circo de lucca

Ah, estou feliz. Que amanhã tem lançamento do Jozz. É de quadrinhos, lá no Gual, o HQMIX, espaço na Roosevelt, que só tem contribuído com a vida na praça, com várias publicações independentes interessantes (vende o que tem na Cultura também, claro – o inverso é que nunca é verdade em todos os casos).

 

Na linha todos-os-poemas-são-metalingüísticos, uma das propostas do livro é ensinar como se faz quadrinho, contudo se trata uma história sobre o próprio processo de criação. E o Jozz aproveita da biografia para te confundir: a personagem Lucca, assim como o Jozz, é um estudante de desenho industrial que tem que entregar um trabalho de faculdade... fazer uma história em quadrinhos, então... + aqui

 

Conheci o Jozz naquelas correntes ACMCC, “A Classe Média Cabe num C.”: ele é amigo da Sissy, que é amiga da Elisa, que é da Vacamarela. Transcrevo diálogo na casa da Aninha para entenderem o figura:

 

[ana r pensando, vendo os cadernos do jozz] puxa, deve ser muito legal pegar um papel em branco e fazer uma história...

[julia lima exclama] ah, jozz, mas eu só sei desenhar aqueles bonequinhos de palitinho!

[jozz com seu otimismo irrefutável] então, pronto, vc já tem o traço e o personagem.

Benjamín não gostando nada dessa liberdade toda...

 

Então te vejo lá. HQMIX, Roosevelt, nº 142. Começa às 18h e não sei se termina.

benjamín, o tigre

Hoje peguei trânsito. Muito. Dirigi. Metrô e ainda táxi. Andei e dei aquelas corridelas típica de gente apressada e sem jeito. Ouvi muita Nação-e-u-meumaracatúpesaumatonelaadaaaa... Do trabalho não consigo mais te postar. Bloqueios. A cabeça está tão vazia e pouco iluminada quanto uma tela do word de documento novo. Vão então aí 3 linhazinhas de fofura antes de dormir.

 

 

benjamín on the catwalk

 

oh, dilema, pussy cat,

ser um tigre por dentro

com tanta pelúcia por fora

 

Creio que vou gripar. Ando cansada. Não contei tanta coisa para vc. Nem disse do Marcelino e dos Cantos Negreiros. Ou dos Desconcertos com o Paulo F que recebi o convite. E ainda do curso de Criação Literária da AIC com o Petrônio. E o mais importante, que depositei meu mestrado. Não, claro que não é o mais importante, isso fica por conta de uma missa que copilei, outro dia te conto, os acordes ainda soam nesse quarto. Mas não esqueci dos melhores pensamentos que a Maiara nos pediu, jamais dos teus poemas. Essa minha cara de menina, que irá direto à velhice sem passar pela idade adulta, como minha avó e outras tias, permite que eu me preocupe com outras coisas que não a pura cidade. Há mais coisas acontecendo nesses meus silêncios.

 

do enivo também, penso que é uma menina olhando um peixe

 

galeria de luz

Conheci o trabalho do Enivo agorinha, grafiteiro, via dona Alessandra Cestac... E mostrei por msn esses traços para 2 amigos. Decidi postar 3 aqui para se espalhar. Pois nesse mundo de luz há tb outros tipos de vírus. + no flickr dele!

 

 

 

 

 

recortes

 

Não há nada mais velho que jornal de ontem

 

Entrevista: Eu queria usar um véu na cabeça

Ao menos assim, ficaria claro

 

Disse Mao que gostaria de enviar

10 milhões de mulheres chinesas aos USA

 

Kissinger não aceitou a proposta

Um lugar no céu é caro

 

As chinesas também conquistaram seu lugar

 

Um homem abre fogo em Illinois

80% das vítimas são mulheres charmosas

 

Eram morenas e loiras de sangue vermelho

 

Publicaram a foto dela pelada em comemoração ao centenário

Mas era uma feminista de bunda bonita, que mal faz?

 

Dominique viu tudo, mas deveria ficar quieta no quarto

Está em seu quarto agora

 

 

[para manu e maroca que amo tanto]

 

anjo com sexo feminino ainda me disse: "francesca woodman"

sobre essa grande fotógrafa, leia aqui

vestido de noiva

fila para assistir a peça, em plena quinta-feira, dobrando a esquina

 

Fui. O texto é meio monumental já. E foda o que fizeram com ele, que mundo louco que vivemos, é um espetáculo. agora 2 sessões por noite. Para não ficar ninguém de fora. E lotadas no máximo, com 255 pessoas cada. Puta, tem que ter muito coração. E estrutura, por que o teatro ao final veio abaixo, como agüentam outra na seqüência? Nunca vi nada assim na cidade, vc se lembra de algo parecido?

 

Dupla Silvanah e Guzik família, dei risada, bom ver a Gisa em cena e os meninos, que lindos, a Nora rouca só mais crueldade e força, Laerte no audiovisual (que, aliás, daria um ensaio à parte), o Ivamzinho cara-de-menino até cara-de-marido, e a Norma Bengell, gracias! +fotos aqui

 

E Cléo, desculpa te dizer, mas juro que algumas de minhas personagens têm sua voz. Única coisa que senti falta, foi que não deu tempo de ligar para o Gus. Vc me desculpa, Guaxinim?, tentarei ser menos sumida...

 

 

e Revista Não Funciona nº 15 nas ruas!

Lançamento: Demônio Negro, sexta!

[EM TEMPO!] Márcio Américo, Corações de Aluguel

 

Márcio Américo é escritor, dramaturgo, poeta e ator. Autor do "clássico" Meninos de Kichute (que em breve terá uma versão cinematográfica), Mácio produziu para o teatro, entre outros: Vai Fundo Arturo Bandini (1990), Cenas de Sangue na Avenida São João (1994), Pulp Love - Uma fábula ordinária (1995), O Homem que queria ser Rita Cadilac (2004). Como ator, participou das montagens Fica Frio, Nossa Vida Não Vale um Chevrolet e Medusa de Ray Ban (texto e direção de Mário Bortolotto).

Sebo do Bac, umas 20h. Espaço II, Os Satyros, Pça. Roosevelt, 124.

postagem duvidosa (sobre a mesma coisa de sempre)

a publicação dessa foto foi assunto de minha conversação interna por bastante tempo. cansada e sem um poema violento para me armar, te deixo. queria é tomar cerveja com a maiara e a maroca até de manhã cedo, talvez passasse.

 

simone de beauvoir retocada no Photoshop

 

Ps.: Procurando a foto na net, encontrei um texto da Paula Sibila sobre o tema (não vou dizer que é "mera coincidência"). Não é exatamente meu ponto, mas talvez ajude a colocar questões.

ainda sobre como soa o português

Poucas coisas me soam mais portuguesas do que a Sophia de Mello Breyner Andresen. Existe uma nostalgia que nunca irei entender bem de onde tiram, fumos de mensagem e quinto império...

 

Talvez vc possa reclamar sobre toda essa busca por uma beleza. De minha parte, poderia contra-argumentar, dizer que no poema de Sophia a beleza sempre já seja perdida, meio desamparada, mas vc tem razão: mesmo em estado de saudades, eles persistem na busca, a vasculhar gavetas de um passado belo em que nós nunca caberíamos.

 

Contudo, como te escrevo para não te deixar só nessas paragens, perdemos juntos a discussão. Por isso publico os dois poemas na seqüência para que a última estrofe do segundo continue ressoando por essas horas.

 

[sem título], Francesca Woodman

retirei do blogue Assobio

 

 

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa

 

 

 

 

Casa Branca

 

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com o teu jardim de areia e flores marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

 

A ti eu voltarei após o incerto

Calor de tantos gestos recebidos

Passados os tumultos e o deserto

Beijados os fantasmas, percorridos

Os murmúrios da terra indefinida.

 

Em ti renascerei num mundo meu

E a redenção virá nas tuas linhas

Onde nenhuma coisa se perdeu

Do milagre das coisas que eram minhas.

 

epílogo da breve história da menina que teve um nome por 30 dias

 

é a bailarina da caixinha de música

que sabe requebrar

 

eu sei que vc sabe seu nome

a mais nova ex-big-brother

com seus shows a la realidade

 

eu sei que vc votou

assim ela é jogada à avenida

toma alegria

toma alegria

é carnaval no brasil!

 

rodopia na caixinha rodopia

mãos apoiadas no horizonte curto

o fim da avenida é a morte de um ano

o ano só começa depois do carnaval

 

sorriso que aprendeu a vender shampoo

esta marca que eu sei que vc compra

 

pegue a caixinha e confira:

a etiqueta da promoção quanto-vale-o-show

vai no tapa-sexo

 

peitos empinados firmados a plástico

sobraram uns ossinhos na costela

roídos na festa da audiência

o seu amor é canibal

 

bunda chocalho na canela

com toda a vontade de ser, mexe com ela

acena ao público com ternura e chora

lembra da época em que se maravilhava

com sua própria caixinha de música:

 

mostrava aos gritinhos pro tio

ele dava tapinhas no traseiro

- essa menina ainda será a rainha da bateria!

 

 

Esse poema é pra test-drive (saudade do Del). Finalmente posto as fotos do carnaval. Valeu Caqui, valeu Jozz!

[e falando no big brother, não perca o Caqui no Qual é a Música ao lado de Silvio Santos, sim, eu sei que vc canta junto]

 

bicicleteiros na Augusta às 22h da segunda. vai entender essa cidade

 

para provar que a noite vira dia: às 0h com as luzes do sambódromo

 

sambódromo da cidade túmulo do samba.

parece um animal marinho. créditos do caqui

 

anjos no ônibus. créditos do caqui que dizia:

- meu, aninhaaa, vc quer perseguir o anjo?

 

 

o túmulo do samba lá tem suas tradições: o papelão cortado à esquerda é o prato, para a pizza como deve ser. 3662.3662 às 2h

diversos

Esses dias foram tão cheios. Difícil de te contar.

 

[1] Bem, antes de tudo, foi maravilhoso participar do Teatro/Mercadoria #1. Até agora estou com várias questões na cabeça, como deve ser. Voltarei. Minha admiração reside principalmente na dificuldade de colocar de pé um espetáculo desses. E creio que o debate ao final seja algo que faz parte da peça, pq assim o público tem um outro lugar para se reconstituir.

 

Márcia querida, e quanta coisa ainda temos que trocar numa mesa de bar! Gracias, chica! (a foto original é dela)

 

 

[2] Revista Etcetera nº 22 deste mês traz várias coisas boas, dentre elas um texto sobre João Antonio, salve! “O sem eira nem beira ainda perambula errante pelas quebradas do centro da cidade observando a vida das prostitutas e dos vagabundos e procurando por um “parceirinho” para uma partida de sinuca” por Sérgio Saraiva.

 

[3] E tenho que dizer do blogue da Modo de Usar & Cia que publicou uma série sobre 2 poetas da transição do século XIV para o XX: o francês Pierre Albert-Birot (1876-1967) e o alemão Hugo Ball (1886 -1927). A série também fala de trabalhos de poetas gringos e europeus que produziram dentro/sobre dessas propostas.

 

No blogue, é possível encontrar vídeos e links com leituras. Dentro da idéia “Mas a poesia não fica só no papel (ainda que muita gente assim prefira, e de preferência que fique quietinha e não incomode)”.

 

[4] E estou preparando algo bem legal para o Dia Internacional das Mulheres... já te conto. Hehe, não esperem nada de feminista, claro. Ou esperem muito, nunca se sabe. Muito sobre poetas vivas e hermanas latinas ("hermanas latinas" não é pleonasmo, como já discuti com um amigo, ah, cerveja e bobagem). Aguarde!

 

Ilustro com o poema “Fisches Nachtgesang”, 'Canção Noturna do Peixe', de Christian Morgenstern, 1905 [tirei daqui da Modo de Usar].

Praticamente uma "Canção do Limpa-Vidros" alemã há cem anos atrás, hahá, brincadeira - canção que foi, aliás, minha primeira postagem no Peixe de Aquário. Ando sentimental.

 

 

Ps.: Caqui - te juro que publicarei as fotos do carnaval!

convitito

[chamadinha] estarei amanhã (sexta) com a companhia do Kiwi no Teatro Fábrica.

 

Depois do Arte TEATRO/MERCADORIA #1, haverá um debate e conversaremos sobre a Distribuição por Contrabando do AcordadosVamos? Te espero.

 

“Teatro/mercadoria # 1 é uma "situação teatral", expressão que lembra e oferece a crítica as idéias do movimento situacionista, que teve em Guy Debord um dos seus principais ativistas.

 

T/M # 1 mistura linguagens e formatos (sarau, intervenção, comédia, farsa, tragédia, instalação, performance) para expressar algumas das aventuras da arte no mundo da mercadoria. A moda, o consumo compulsivo, a erotização vulgar, o culto da celebridade, o narcisismo, a publicidade ostensiva, o cinismo pós-moderno, a futilidade e banalização artísticas ocupam cada vez mais espaço no cotidiano, acelerando a transformação da vida em mercadoria. Pessoas, eventos sociais, educação, arte e cultura transformam-se em moeda. Sem pudor e sem dó, tudo o que e sólido, e não sólido, incorpora um valor de troca e enreda-se na forma-mercadoria”. + aqui

 

Teatro Fábrica, Rua da Consolação, 1.623 - tel. 3255 5922. Estacionamento conveniado: Rua Pedro Taques, 54. 21h. R$ 12,00 inteira.

 

[EM TEMPÍSSIMO] Os Satyros amanhã encenam seu Vestido de Noiva. Ah, isso não perco por nada... está na agenda!

raúl zurita iv

Queria deixar para vc, fiel leitor de carnaval, com muito carinho, o início do Canto a Su Amor Desaparecido – esses versos sempre me arrepiam. E se alguém quiser pitacar a tradução, mais que bem-vindo (e Snoop, gracias).

 

[AQUI: VÍDEO DA LEITURA]

 

 

"Ahora Zurita - me largó - ya que de puro verso y desgarro te pudiste

entrar aquí, en nuestras pesadillas; ¿tú puedes decirme dónde está mi

hijo?

 

— A la Paisa

— A las Madres de la Plaza de Mayo

— A la Agrupación de Familiares de los que no aparecen

— A todos los tortura, palomos del amor, países chilenos y asesinos

 

Canté, canté de amor, con la cara toda bañada canté de amor y los muchachos me sonrieron. Más fuerte canté, la pasión puse, el sueño, la lágrima. Canté la canción de los viejos galpones de concreto. Unos sobre otros decenas de nichos los llenaban. En cada uno hay un país, son como niños, están muertos. Todos yacen allí, países negros, áfrica y sudacas. Yo les canté así de amor la pena a los países. Miles de cruces llenaban hasta el fin el campo. Entera su enamorada canté así. Canté el amor:"

 

 

Agora Zurita – me contou – já que de puro verso e desgarro você pôde

entrar aqui, em nossos pesadelos; você pode me dizer onde está meu

filho?

 

Ao País

Às Mães da Praça de Maio

Aos Grupos de Familiares dos que não apareceram

A todos os torturadores, pombos de amor, países chilenos e assassinos:

 

Cantei, cantei de amor, com a cara toda banhada cantei de amor e os garotos me sorriram. Mais forte cantei, a paixão pus, o sonho, a lágrima. Cantei a canção dos velhos galpões de concreto. Uns sobre os outros dezenas de nichos os enchiam. Em cada um há um país, são como meninos, estão mortos. Todos jazem ali, países negros, áfrica e sul-americanos. Cantei a eles assim de amor a pena dos países. Milhares de cruzes enchiam até o fim o campo. A sua namorada eu cantei toda assim. Cantei o amor:

  

Ps.: É possível fazer download do livro na íntegra aqui. E sorry por não manter as quebras originais do verso, não coube devidamente no espaço do blogue.

comentário. raúl zurita III

Sor Juana feliz

O Wolf fez um comentário ao post abaixo bem pertinente: “muito interessante. arte ou marketing”, referindo-se à escritura no deserto do Zurita.

 

Como uma livre pensadora de boteco (apertada no espaço do blogue), imagino que o marketing sirva para estimular as pessoas a reproduzirem em todas as esferas de sua vida a mesma lógica de mercado – investe-se no namorado, a mãe valoriza a filha, a solteira se dá um banho de loja e os meninos se detonam na balada.

 

Assim, o marketing procuraria exterminar a subjetividade, pois quer que toda pessoa tenha seu modelo de vida espelhado nos ditames vindos dos céus de skyscrapers & consuma. Ah, sim, e melhor se o cidadão nem imaginar isso - é meu estilo, pobrecito.

 

Como acreditar que a Nike é uma empresa responsável. Que correr faz bem para saúde. Que não há trabalho escravo no mundo. Nem criancinhas cheirando cola de tênis (ai, que mau gosto, ana!). Do it.

 

E a arte exatamente se propõe desautomatizar esses comandos de consumo, provocar reflexões, estranhamentos, será que minha vida é só isso mesmo?, além de riscar outros horizontes, abrir perspectivas para imaginarmos. Um alarme de incêndio. Ou uma faisquinha. Ou versos escritos num céu azul em espanhol sobre Nova York.

 

Outra coisa importante: será que a poesia tem que ficar restrita ao livro fechadinho, comportadinha, na estante, sem incomodar? Essa forma do imenso talvez tenha motivado o comentário do Wolf, que agradeço muito.

 

Sor Juana triste

 

[EM TEMPO] Aliás, ótimo o texto do Del sobre o Marlyn Mason, acho que sonhei com isso... E o post do Héber Sales sobre sua correspondência com Antonio Cícero.

gestos. raúl zurita II

Em 1992, Zurita traçou por 5 quilômetros no Deserto do Atacama a inscrição ni pena ni medo (nem pena, nem medo), que poderiam ser vistos por aqueles que voam de aviões ou que nos olham dos céus.

 

Conforme ele mesmo nos conta em entrevista ao Correio Braziliense (a cicatriz a qual ele se refere é explicada no post abaixo):

"Essa frase encerra o último livro, A Vida Nova. A superfície perfurada no deserto, a linha das letras, eram semelhantes, absolutamente semelhantes, à marca de minha cara. Um amigo me chamou a atenção para isso. Foi forte. Ambas, a cicatriz e as escrituras no deserto foram sendo apagadas. Sobre o deserto há uma palavra que não se apagou e, ao que parece, isso não acontecerá: é a palavra medo".

 

(continuará)

 

 

[EM TEMPO] A Micheliny Verunschk transcreve o diálogo que a Nina, sua filhinha, teve com a avó sobre a morte do bisavô. E ainda sobre crianças, as Edições SM lançarão Pão com Bife, de Fabiano Calixto, e Coisas Daqui, de Ruy Proença, livrinhos de poesia infantil.

eu-sei-que-vc-não-foi-sambá

Bem, já que vc não tá na folia e está aqui me olhando, preparei algo: te falar sobre o Raúl Zurita - continuo o assunto durante o Carnaval.

 

Meio intoxicada com o jornalismo celebridade – as manchetes parecem crianças que a mãe foi passear e se entopem de doces até se cagarem todas.

 

Mas para vc não me dizer que sou deslocada do tititi, me posiciono totalmente pró Preta Gil! Estou com náuseas dos comentários em pontos de ônibus condenando a Preta de usar biquíni - citando Catropa, assim vou é de burka pra praia! Aliás, vou nada – esse bando de fascista merece uma bunda na cara. Estou na revolta rasa diretamente do túmulo do samba, batucando sobre a imigração japonesa e me mentindo sobre o mestrado, terror total, hahá.

gestos. raúl zurita I

No mesmo mês em que ET – O Extraterrestre do Spielberg estreou, 5 aviões riscaram os seguintes versos no céu de Nova York: 

Mi Dios es hambre

Mi Dios es cáncer

Mi Dios es vacío

MI Dios es ghetto

Mi Dios es nieve

Mi Dios es hombre

MI Dios es dolor

Mi Dios es... mi amor de Dios....

na extensão de quase 8 quilômetros. Soariam mais ou menos assim, “meu deus é a fome, meu deus é o câncer, meu deus é o vazio, meu deus é o gueto, meu deus é a neve, meu deus é o homem, meu deus é a dor, meu deus é... meu amor por deus”.

 

Esses versos são do chileno Raúl Zurita, do livro Anteparaíso (1989), extraídos do poema La Vida Nueva. Mais que romper o tal branco da página, essa escritura escancara os céus do grande pólo de decisões da América, cidade fetiche do capitalismo com sua dita multiculturalidade.

 

Escreveu nos céus de NY em espanhol, como uma homenagem-mensagem à comunidade latina nova-iorquina, “era tão ínfimo ser peruano, boliviano, chileno, colombiano, contudo tinham uma língua e raiz comum. Isso constituía uma pátria mais ampla e mais concreta” – fico imaginando que lindo, estar no exterior e ler poemas em sua língua... água nos olhos...

           

Essa ação poética resume em parte a proposta de Zurita, que estranhamente ainda não foi muito comentada aqui no Brasil e nem tem um livro inteiro traduzido (ah, esqueci, por aqui ainda se festeja o manifesto concretista, que já completa meio século...): a que incorpora o gesto.

 

Considera sua primeira “palavra” a cravada com ferro em brasa na bochecha, quando tomava banho, sozinho, num ato de desespero. Isso foi em maio de 1975, ascensão do Pinochet. A capa da edição de Purgatório tem essa cicatriz.  + aqui

 

 

(continuará)

 

quem linka o peixe
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