Vacas no Peru y Flores ao México

 

Ainda há um Deus. Que diz sobre a correspondência. Pareceria coisa pouca, algo puramente doméstico, caso fossem outros tempos, menos hiperiluminados. E Ele prevê que são esses os laços que nos salvarão da desintegração total. E a correspondência fez-se existir.

 

Hoje digo de um blogue que tenho carinho, DEVRAYATIVA, penso que são praticamente a VACAMARELA do México, hehe. É editado pelos Eduardo de Gortari, Daniel Malpica, Eliud Delgado, Yaxkin, Luis García Arce, Iván Ortega-López e José Manuel Serrano.

 

ALIÁS, PARA LER A VACA NO PERU (español, por supuesto)

: CLIQUE LAPSUSWEB!

 

Então, dei de cara com o poema Flores do Yaxkin Melchy, e já o li em pt. Como observou sobre tradução o excelente Tércio, há textos que se entregam. Creio que o poema do Yaxkin veio já todo, respirando, cheio de sons de um outro poema que escrevia ontem.

 

Não se engane. Não se trata simplesmente de se escrever poemas e traduzir versinhos, trata-se de tocar em alguém, sentir perto sua respiração, esse milagre da correspondência que não cabe num livro. Cabe num gesto.

 

[poema original + tradução – aceito pitacos!]

 

[AMANHÃ] 10 anos de Inimigo Rumor! Bar Balcão, depois te conto. Tudo. ;)

muitos

[antes] O post de esmurrar a cabeça na parede. No blogue do Rafael. Aquela antiga e constante salva de cicatrizes e silêncios.

 

[É HOJE] Lançamento d’O Casulo na Casa das Rosas! Saia agora de casa! (é adorável dar ordens, me sinto uma publicitária).

 

 

[REPÓRTER] Incrível! 24h depois os vidros estão novamente intocáveis.

 

: SÓ O IMPENSÁVEL É IMPOSSÍVEL.

 

Daud, o perito, conferindo "O Livro da Arte" na vitrine reconstituída

conjunto nacional

[VIRADA] Hoje no III Bazar da Oficina da Luz estarão à venda trabalhos de 30 artistas a preços acessíveis. O Acordados estará por lá, junto com outros trabalhos da dona da capa, señorita Cestac. Eu não perderia.

 

 

[REPÓRTER] Era para ser um furo de reportagem do Peixe, mas tive preguiça de ir até uma lan house. Ia sair até antes da Folha Online. O melhor é que ninguém dos 40 consternados queria me contar o que se passara, todos reunidos mirando a uma constelação de vidro fazendo as honras de pano de chão, pisavam nos astros distraídos, com muito ar de mistério. Como se houvesse segredos para certo tipo de mexequeira. Claro que conheço o senhor japonês que faz xerox e as meninas que vendem salgadinhos e paqueram os caras que saem da academia de ginástica.

 

Todo aquele vidro quebrado saiu dum bastão de beisebol que um tipo desferiu sem dó na Livraria Cultura, fiquei sabendo. Naquela parte da vitrine de arte, sabe? Onde vc não consegue comprar, porque para vc não está à venda. Para te deixar cheio de angústias e sem nada nas mãos. Aí vc entra e compra alguma coisinha.

 

Engraçado que quando me contaram a história, meus gentis informantes ficavam um pouco constrangidos, faziam o comentário “agora o porquê dele ter feito isso, eu já não sei” como se também entendessem o cara.

 

descobri que quanto mais tosca a resolução da foto,

mais parece coisa séria e urgente

o gênero epistolar (que vc adora, te conheço)

Dirceu querido,

 

Sim, faço o esforço de postar completamente esgotada para te dizer: ando sobrevivida! Já que vc vem aqui para ver como essa tua colega está. E colega é das palavras a mais burocrata. Adoro, colega.

 

Digo que estava com a cabeça na lua, essa que visita antes essas terras brasiliensis para servir como mensageira de meu amor aos hemisférios que só irão enxergar a lua umas 5h mais tarde, quando recebi a offline – nada mais correto o nome da revista. Encontrei-me publicada com o poema huracana, e a Priscila, amiga da Cláudia Roberta, fez a fineza em ceder-me o exemplar. On-line está aqui: clique.

 

Falando em lua & hemisférios mais ilustres, descobri algo engraçado estudando o Cruzeiro do Sul: que a constelação da Ursa Maior faz um desenho com um rabo comprido. Mas... ursos não têm rabos! A explicação semiológica-antropológica é que os índios norte-americanos enxergavam uma ursa abatida, carregada por sete guerreiros. Colonizadores, tsc, tsc, sempre abreviando processos. A menina do meu lado no ônibus vê uma ursa com véu e grinalda. Creio ser a interpretação tele-novelística do hemisfério sul.

 

a constelação para vc entender

 

ilustração em que a ursa parece um quati

 

Tenho mais coisas novas escondidas nas mangas. Ah, mulheres e suas rendas! Mas dou tempo ao tempo, só para me vingar dessa matéria que me consome. E se a terra aqui treme, é porque me pressente.

 

Até amanhã às 18h!

sopros além-mar

Hoje escolhi um poema do João Miguel Henriques, poeta português mantenedor do blogue Quartos Escuros. E meu interlocutor chistosamente em portuñol, ah, loiras.

 

Escolhi postar sobre o João porque ando com saudades da Virna – esse negócio de trabalhar com internet bloqueada não é para qualquer um... O livro O Sopro da Tartaruga meio que sempre me deixa com um rombo no peito de ler, que tristezas doídas. Ah, João, saludos para ti!

 

O TEU QUARTO ESCURO

 

abro a porta

espero

dou o primeiro passo

entro na escuridão

 

habituo-me aos poucos

aos contornos escassos

das coisas sem vida

 

tropeço duas vezes

nos despojos deixados

pela tua jornada

 

encontro com os dedos

a pálida luz

de cabeceira

 

(à borda da cama

existe um abrigo)

 

se a cama estiver vazia

passarei acordado

a noite por inteiro

 

(procuro

o teu quarto escuro.

tu não és a minha sombra)

 

acordo - Certeza de Fazer o Mal

ida ao paraíso - minha vista vespertina da marginal

 

Há certas coisas que não se deve dizer. Porque as palavras se prostituem com facilidade, como a “amor”, a “bondade”. Nada demais com as letras, as palavras seguem seus donos. Por isso também é possível as raptar para outros domínios, onde se encontre esse amor que cantam as estrelas desde quanto o tempo não existia.

 

Mas há certas coisas que se deve tentar dizer. E algumas tentativas em si já são o próprio dito.

 

Falo de uma tentativa de agradecimento à Maiara, que dedicou seu espaço A Certeza de Fazer o Mal ao Acordados nesses últimos dias.

 

E espaço, como bem pós-hodiernamente sabemos, é tempo, que cada vez mais é nos roubado. Um carinho imbuído da intensidade característica dessa poeta, amiga - não sei dizer o obrigada com o devido peso. Embatuco.

 

Todos estão zonzos, mas o script diz: dancem dentro dessa caixinha de vidro exposta ao respeitável público... um baque surdo: Clarissa cai. Mas o vidro não quebra. O que os bailarinos fazem no silêncio do quarto? Existem, talvez. Ouvem o sopro gelado de Clarissa? Talvez, mas estão em fuga. Tudo está acordado desde o início: um sonho-prisão. A mescalina envolve a sala de reunião, fumaça brilhante. Alegria pode escolher tudo: uma vida sossegada e doce. Doce como aquele na boca da mendiga sem pernas. A cadeia de acontecimentos, aparentemente casuais, será a ruína. Quem vai ficar com o entulho? Jogo de cartas marcadas. Há um coringa e muitos pares separados pela aparente confusão.


Pescador-menina de olhos miúdos prepara o anzol. Sereia astuta cantarola ao longe, exibe no rosto a expressão dúbia de Alice no Reino do Espelho, minha boneca preferida desde sempre. Quando a sereia entoa melodias devemos mergulhar? Questão de enorme gravidade. Por isso estou ouvindo Bach. Para ficar com ouvidos afiados & cérebro pronto. Pois a melodia hipnotiza. A música está num ponto muito fundo e terrível. Mais seguro permanecer na superfície:

 

“O problema todo, pelo que entendi, é quem vai ficar com o entulho (...) há uma construção de grande porte que será demolida, antes abrigara uma antiga cadeia pública”.

hum, cruzei a fronteira da primeira série, 5 estrelas. parece que peguei o jeitinho... vou trabalhar esses poemas pra ficarem foda.

 

na verdade significa dizer que deveria desistir (- o quê posso fazer com um poema, se quero raptar adolescentes pra fora da caixa de luz azul de suas noites?), e voltar a cultivar cactos compulsivos por água. que morrem. e aí minha função é todo aquele choro pela morte menos seca. basicamente um desperdício de umidade. como diz o profeta

 

: que deus nos agarre confessos.

 

 

imagem

v.

hoje escrevo para os mortos

 

e por isso as letras não                               são

 

aqui na selva há um nevoeiro pesado

ofuscante                    branco

 

que oculta os meninos que   fodem um formigueiro em terra viva

hahahá riem                                            os canos dos  soldados

que                 escondidas essas mulheres grávidas baioneteadas

outras menos mais mulheres troca-trocam fuzis por piratas de comédias românticas

 

ah, ofusca-nos,   meu jesus niño de ojos tristes

                                              e como prosseguir?

a poesia desfaz-se nessas paragens    brancas

                                          mal  risco

                                macula-se

em desaparecimento

 

iv.

como eu imagino vc assobiando

(esse meu amor, supernova lado b,

coisa rara de uma constelação sem luz)

 

 

 

 

: os novos invisíveis mandam dizer

- que meu poema pesa uma tonelada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

e se deus quiser descer pra vê, que desça armado

 

iii.

o dia novamente

em coma no estômago

 

queria pensar em flores o en chuchos

mas teria que me mudar de continente

 

talvez um suicídio, mas isso é puro mal-gosto

 

o dia novamente

apaga uma a uma dessas letras em brancolimpo.

 

mas é como tinta fresca da madrugada

a poesia que nos falou ainda ontem

que hoje cedo nos desfigura a navalhadas lentas

fundas e sem norte

por esses fiozinhos de sangue salgado no rosto

a gente sai daqui

 

ii.

Baby, en serio que así uno ya no sabe dónde empieza la ficción y

termina lo que es. Epígrafe retira de El Libro de A, volume ii

 

 

amor, hoje quem brilha é a estrela de magalhães

acima desses céus febris e chuvosos de ontem à noite

 

e a constelação do centauro, este meio-niño, meio-mulher,

apresenta-se como o profeta que indica o caminho

 

: no hay camino.

 

e assim confiante, prossigo a escrever

poemas em branco

 

que por absolutamente não existirem

podem soar todos sonhos de ruas e linhas de estrelas que se cruzam

 

i.

: queria te escrever um poema assim, muy lindo,

mas era tanto tanto que nunca seria escrito, sabe?

 

exatamente o que se perde é o que se gostaria de estar ali

vc

 

a poesia só consegue cantar

(nesse pobre estado de permanente saudade)

sobre tudo que já não está mais ali

 

como essa areinha fina que faz cócegas nas calçadas

como esses poços escuros entre as estrelas que me olham tuas pupilas

 

gravuras de chagall

Conheço pouco do Chagall. Podia até colar da Wikipédia. Mas sempre achei bem significativas suas pinturas: tem lá seu grande valor a arte em que o leitor pode a completar de significados. Esse quadro completo-o agora.

 

mais da Ilha de Nome Santo

Para completar binariamente um parzinho com outro romance do Tenreiro. A foto está pequena, mas as montanhas, prédios e luzes me parecem da familiar Ubatuba à noite.

 

 

Romance de Seu Silva Costa

 

“Seu Silva Costa

chegou na ilha...”

 

Seu Silva Costa

chegou na ilha:

calcinha no fiozinho

dois moeda de ilusão

e vontade de voltar.

 

Seu Silva Costa

chegou na ilha:

fez comércio di álcool

fez comércio di homem

fez comércio di terra.

 

Ui!

   Seu Silva Costa

virou branco grande:

su calça não é fiozinho

e sus moedas não têm mais ilusão!...

cantilenas da ilha de são tomé

Ai, estou cansadíssima – para variar. E mesmo sendo criatura de coração mole reconhecidamente, digo que os comentários do Paulo M e do João Athayde me convenceram as forças para encontrar agora às 1:51h na bagunça do meu quarto esse poema impressionante e o datilografar para vc.

 

Faz parte do Ilha de Nome Santo, do poeta Francisco José Tenreiro (1921-1963), de São Tomé. Deus!, às vezes não entendo como esse tipo de coisa não é lido na escola aqui no Brasil. Isso seria tão rico para conversar (como conversa) com Mário, Oswald, Bandeira, enfim... e sobre eventuais piruás vocabulescos, acho que a imaginação é mais bonita que usar o google. Aí vai.

 

Romance de Sinhá Carlota

 

Na beira do caminho

sinhá Carlota

está pitando no seu cachimbo.

 

Um círculo de cuspo

a seu lado...

 

Veio do sul

numa leva de contratados.

Teve filhos negros

que trocam hoje o peixe

por cachaça.

 

Teve filhos mestiços.

Uns

forros de a. b. c.

perdidos em rixas de navalhas.

Outros foram no norte

com seus pais brancos

e o seu coração

já não lembra o rostinho deles!

 

Sinhá Carlota

veio há muito do sul

numa leva de contratados...

 

Assim

embora pra seu branco

o seu corpo não baile mais no sòcòpé

ele ao passar

fica sempre dizendo:

                                    sàbuá?

 

Sinhá Carlota

nos olhos cansados e vermelhos

solta um achô distante

enquanto vai pitando

no seu cachimbo carcomido...

 

pobre peixe sem respirar

isso daqui anda um terreno baldio

o que é sempre um bom começo

no caso, é um meio (de semana corrido)

quem linka o peixe
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