[1. QUADRO BRANCO]

 

De Emanuelle | Para ana rüsche

Data 22 de agosto de 2008 19:46

Assunto: hein? | ocultar detalhes

 

Então? Ta viva? RE: estou.

Cadê vc? RE: Em São Paulo, aqui nesta tela.

Me odeia? RE: Não.

Foi pra marte? RE: Negativo.

Ou entretida com Vênus.... ? RE: Sempre (hihi).

Beijo RE: Linda, adoro vc, querida.

 

* * *

[2. DO VÍDEO ABAIXO]

 

Quando a Néle era pequena, tinha imensos problemas em dobrar cobertores para arrumar a cama. Estendê-los, não ficava bom, puxava as pontas, dava a volta na cama, como ondas enrolavam a pequenina, ela revidava num pedaço da coberta, não adianta, desenrolavam-se nas areias dos lençóis, ela nadava até o outro lado, ufa, eram grandes e intermináveis e difícies os cobertores.

 

Quando a Néle cresceu, e vejam que nem tanto (por puro charme), preferiu então trabalhar com bonequinhos. Coisas pequenas. Uns bonequinhos transparentes, arqueados e magrinhos, como essas mulheres que esperam a vida passar sentadas nas calçadas. Como esses homens cabisbaixos que operam computador nas madrugadas.

 

E sonhou com os monumentos difícies e intermináveis da cidade. Quando foram pirâmides os monumentos e eram túmulos. Quando limparam bem a morte deles e impuseram grandes homens industriais nas conquistas de papel. Quando foram esquecidos no caos das areias do asfalto. Assim, a Néle, ainda pequena, mas imensa, começou a fotografar os jeitosos bonequinhos transparentes ao lado de mastodontes de glórias obscuras.

 

Um dia, veio a era do gelo. A Néle derretia bonecos e bonecos que se choravam inteiros ao lado dos monumentos. Um bonequinho solitário aqui, outro ali e logo mais um e outro e outro ainda mais, logo uma praça cheia e ajudam crianças, velhos, moças de coração partido, executivos com pressa e olhos com gelos derretidos, mães, homens cabisbaixos, e ambulantes vendem pipocas e foi Riberão Preto, Campinas, Havana, São Paulo, Tóquio, Paris, Porto, e a televisão filma, e tudo se derrete quando acaba, pois derretemos nós mesmos pelas lágrimas dos corpos dos bonequinhos.

 

E o que resta, é sempre tudo.

 

Agora os bonequinhos, de tão famosos e charmosos, irão para Florença, ao lado das estátuas brancas que não derretem. Para que elas sintam saudades do tempo em que eram meras pedras na chuva e dentro da terra e podiam derreter como já começamos a chorar por dentro. Geleiras do próprio planeta.

para amanhã (seja lá quando for)
assunto: bienal

De Rafael Rocha Daud

Para ana rüsche, Alan Mills

Data 25 de agosto de 2008 10:23

Assunto bienal | 10:23 (9 horas atrás)

 

Oi, crianças,

 

fiquei tão mal este fim de semana que não fui ver vcs nem na Bienal

mas agora fiquei morrendo de curiosidade de saber como foi.

E como andam vcs.

Saudades./

 

 

de ana rüsche

para Rafael Rocha Daud

cc Alan Mills

data 25 de agosto de 2008 19:29

assunto Re: bienal

 

Oi, Daud!

 

Putz, você perdeu! Foi o máximo! Oi, crianças é exatamente o espírito.

 

Sério mesmo, umas das leituras mais legais do ano. Já contei tuuudo para as meninas no domingo, mas conto de novo procê (e pros peixeanos, que receberão este e-mail de post).

 

Chegamos com muito material na sacolinha. Poemas ainda à mão, livros, vários postais do El Libro de Alan e o pacote-bomba: 10 exemplares do Acordados, claro. Não se perde por nada contrabandear livros de graça dentro da Bienal.

 

Faixa etária de 10 anos tinha o público. E longe do que haviam me falado, muito atentos, irrequietos, com aquelas vontades esperneantes de fazerem perguntas e saberem mais e mais. E cada indagação genial. “E o que exatamente você quis dizer com esse poema?” – taí o que todo mundo quer perguntar.

 

O poema do “peixe de aquário” funcionou, um dos trunfos que tinha na mão. Ai, Daud, imagina, ler meus textos ali para aquelas carinhas... Festejaram o “yes!” quando contei que era boa aluna, mas era bagunceira, hehe; arregalaram os olhos quando ouviram um “mierda” (será que pode?) e acenavam sempre “sim” e “não” se perguntávamos algo.

 

Distribuí 11 exemplares do Acordados. O mini-contrabando foi feito na seguinte regra: cada um tinha que dizer (i) para quem ia dar o livro (ii) e o motivo. Desde a aluna linda que escolheu dar para a D. Luciana, sua professora. A neta que ia presentear a avó. O menino que iria dar ao pai, “pô, ele tem que entender que poesia é importante”, o pai coruja que ia dar a filha, que ainda era de colo. Melhor um garoto “cadê o cara? cadê o cara?”, atrás do autógrafo do Alan. Faltou um para a simpatia da Tatiana Fraga e sua filhinha. Anotado na lista de pendências.

 

E ainda vimos o Ziraldo autografando uma grandíssima fila de pescoço de girafa. Que animal! O Menino Maluquinho ainda é um dos melhores personagens da década de 90 no Brasil. Ah, isso não tem coincidência! É pra se pensar porque a literatura infantil é vista como literatura menor, separada das demais, num estoque meio que só voltado ao mercado (?), esquecida dentre as matérias optativas da Letras... interessante, fiquei pensando várias coisas... me aguarda.

 

Mando aí dois 15s-vídeos (ah, conceito, hein?). Filmados com meu teen-cel.

 

Depois a gente marca de tomar a cerveja, com a Maroca. Afinal, tô com saudades de ver vcs fora daqui.

 

Beijo!

 

Ps.: E a acústica? Quem tem olhos assim na sua frente não consegue reparar... tem dia que o microfone serve só para ser passado para que seja feita outra pergunta.

  

 

22 segundos de público se acomodando

 

 

15 segundos de público ouvindo

trojan à moda grega

a moda do blogue é sempre trazer conversinhas de fora para dentro. como um espelho ao contrário, desses que se pode entrar. hehe, sim, tenho lá minhas idéias, ando bem quieta ultimamente, porque estou naquele estado: se chacoalhar, sai do lugar.

 

e me pediram para falar de teatro hoje – o pessoal da interação do uol. como escutei uma anedota surrealmente interessante... e o pastiche é a moda da hora... e a performance e o teatro andam cada vez mais perto... ou não... sigo com minha postagem cheia de dúvidas parábolas-parabólicas.

 

entonces, o Alan sempre lê alguns blogues para mim e conta umas historiazinhas do seu mundito bizarro, que é exatamente o meu, felicidades. ele me leu ontem uma história que a Dolores Dorantes conta no seu tabla sin asidero, de um causo que lhe passou em los angeles:

 

: um poeta grego, Demostenes Agrafiotis, deu uma leitura insuportavelmente enfadonha do alfabeto grego durante uma meia hora. claro que você já deve ter sofrido algum tipo de agressão assim, mas essa tem um sentido especial. ficou lá no seu alfa-alfa-beta-beta-qap-qap-tánaescuta-papatano-tango (mentira). bem, beta pra cá, qap para lá, ao final propôs uma troca com a audiência já acabada na sua paciência

 

: abriu um saco de bolas de gude, assegurou que eram gregas – lá vem o presente – e propôs que cada um da platéia desse algo seu em troca de uma bola de gude. bem, a audiência, feliz com o final do suplício, entregou espelhinhos, broches, lápis (dolores cita “una piedra” – quem tem uma pedra na bolsa numa leitura de poesia?). e ficaram alegres com seu presente agrafiotis nas mãos.

 

bem, quando todos estavam já quietos novamente, ele bradou

 

: ISTO SE CHAMA RECIPROCIDADE!!, e passou a pisotear com raiva sobre todos os espelhinhos, pedrinhas, rum, bugigangas. até destruí-los aos pedacinhos

 

. e se ele não morreu ainda, deve viver até hoje. 

 

nóis! o carro do povo da 20ª bienal

poetas autorizados a entrar sem pagar

por estarem no estande folk da bienal

 

hi folks!

 

(mal voltei e reiniciam-se os comerciais. na realidade, o estranho seria se disfarçasse o contrário. ou talvez isso seria o normal. melhor essa última versão. e já acrescento que amanhã é dia do teatro e a uol fará uma campanha e os blogues convidados da uol foram convidados a falar disso durante a ação. sim, tudo muito administrado. ou vc tem a impressão do contrário?)

 

à vaca, que não é a amarela e sim a fria: estamos na programação do carro do povo da bienal!

 

aqui, aqui e aqui podem ser lidas críticas e queixas ao espaço do carro popular. de minha parte, a la joão gilberto, 50 anos de bossa nova, digo por hora que a acústica é bem ruim. então, como somos dignos do pop (não é isso que nos pedem num salão folks?), prepararemos algo interessante, estamos empolgados, ainda não decidi o quê. a ver que passa.

 

sobre acústica e 20ª bienal, gostei bastante do projeto da slam poetry que fui ver no estande da feira de frankfurt. o bas böttcher e dalibor markovic recitam dentro de um aquário de vidro e o público só consegue escutá-los se colocar fones de ouvido. boa. esse ato de colocar o fone e mergulhar no mundo deles (e decifrar o que, a princípio, pareceria ser uns caras estranhos gesticulando dentro de uma vitrine). hum, genial para resolver acústica péssima e desconcentração durante feiras... poderia dizer mais mil coisas, mas por puro amor tenho que sair agora, estou atrasada. a dica é que no dia 21.08 estarão no goethe, quem sabe vc não cola lá?

 

bas böttcher no aquário para o aquário

 

 

SALÃO DE IDÉIAS VOLKSWAGEN

20ª BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO | finzinho da programação

 

18/08/2008 - 2a feira - 19h30

Entrevista e recital com os poetas Donny Correia e Danilo Bueno

Apresentadora: Tatiana Fraga.

 

19/08/2008 - 3a feira - 19h30

Entrevista e recital com os poetas Paulo Ferraz e Marcelo Montenegro

Apresentadora: Greta Benitez.

 

20/08/2008 - 4a feira - 19h30

Entrevista e recital com os poetas Andréa Catrópa e Rafael Daud

Apresentador: Donny Correia

 

21/08/2008 - 5a feira - 19h30

Entrevista e recital com as poetas Tatiana Fraga e Greta Benítez

Apresentador: Frederico Barbosa

 

22/08/2008 - 6a feira - 19h30

Entrevista e recital com o prosador Claudinei Vieira e o poeta Rui Mascarenhas

Apresentador: Claudio Daniel

 

23/08/2008 – sábado - 19h30 (ehh!)

Entrevista e recital de fofura radical com os poetas Ana Rüsche & Alan Mills

Apresentadora: Tatiana Fraga

back to playback

(escrito nas folhas de papel que você insiste em deixar para trás

no banco do carro. guardo-as. e retornam ainda com seus poemas)

 

 

sim, polinizei esse tipo de macho alfa na oitava série, não pensei nas conseqüências

bonitinhos, mostrando projetos de músculos, nós tocávamos tanto neles

e ele inscreviam na própria pele automaticamente um espelho, ali separavam-se de nós

 

esbarrei sem querer na revista dura dobrada ao meio, o que estaria ali?, coisas de moleques

não enxergam e que nunca pudemos compreender bem

e nós ainda em busca de criar flores. agora na faculdade já são zangões sem controle, profissionais

rainha, quis mudar a colméia, mas o planeta está quente demais. negaram-nos cuidar da casa preferem estar entre meninos

 

queria ter essa barriga redonda e essa casa de caos e crias

mas fui trabalhar e paguei o dinheiro numa clínica

agora tenho pesadelos com choros apertados

sou como todas as domésticas do mundo

cuidando do filho dos outros para esquecer do que não se tem

 

eu sim sou a boneca de tua infância. com olhos claros e nariz arrebitado

a boneca que vc sempre teve e nunca foi, por isso me odeia tanto

pode xingar

pode xingar

somos igualmente tontas

nenhuma de nós duas é ainda um homem

 

e os motoqueiros vieram

o primeiro foi seu pai e relou a garupa no espelho

o segundo foi seu irmão e desmunhecou inteiro – pow! – o retrovisor

o terceiro foi aquele que empinou e arrancou o maneta de metal que restava

e sem uma das orelhas, o carro segue triste, com seus faróis em chuva

 

conheço a namorada do motoqueiro

ela não tem motivo para me contar as noites

nem os dias inteiros. em que espancam pára-brisas. por isso sei que ela é um carro na chuva

onde não se vê por estar tudo embaçado

onde não se ouve pelo estalar das luzes no capô

esse abandono de ônibus de caras tontas tão tristes à deriva

 

faz 20 minutos que não olha na minha cara

conversa a sós com o homem da mesa

quando tive que explicar sobre seus deveres, olhou por baixo do copo

não presta. não presta. sigo encarando-o em riste

assim confunde-me com a boneca da irmã

que odeia por não saber empinar a moto como eu o nariz, esses olhos que fitam fitam sem o perceber

nunca, está a sós com essa boneca de olhos

que construiu para proteger-se da irmã

à deriva não te enxergo

 

não te enxergo

não te enxergo

e isso não faz de mim ainda um homem

 

quem linka o peixe
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